Os seres vivos

Por: Sônia Machiavelli

380022

Como todas as crianças deste mundo, descobri cedo que a vida se manifesta sob muitas formas. Acompanhava com paciência a lesma se arrastando por um muro de pedra, onde deixava primeiro marca gosmenta, depois caminho prateado. Olhava admirada as pintas nas asas da joaninha, que se destacavam no vermelho como mínimos confetes graciosos. Espichava no chão para seguir de perto o trajeto de uma formiga carregando nas costas folha de peso maior que o dela, e tentava adivinhar o diálogo rápido que travaria com outra encontrada no trajeto: o bater de antenas seria um simples cumprimento? um alerta? um recado? o anúncio da presença de alimentos no entorno?

Nos zoos domésticos havia lugar para outras indagações e algumas epifanias. Que maravilha a luz fosforescente à qual chamavam vagalume e se escondia no meio do capim! Que susto aquele ser pontudo e verde surgido não se sabia de onde, ajoelhando-se para uma prece: seria por isso o nome bonito de cavalinho-de-deus? Como é que as lagartixas corriam para cima e nunca caíam? Quanto tempo levava uma aranha para construir sua teia no alto lugar onde a parede se encontrava com o teto e formava ângulo? Como é que o grilo cricrilava tão alto se sua garganta deveria ser minúscula?

Mas no reino animal nem tudo era tranquilidade, paz e beleza, compreendi no dia em que esqueci de recolher a gaiola com canarinho -da-terra e, na manhã seguinte, só encontrei penas vazias de forma e de som: o gato do vizinho ronronava satisfeito num canto. Neste dia aprendi o que significava “predador”.

Cresci e meu olhar se deslocou para outras formas de vida, outro reino, o vegetal. No jardim da infância eu via na forma de muitos dedos gordinhos as suculentas que minha mãe plantava. Elas cresciam para baixo nas latas de óleo transformadas em vasos fixados com pregos nas paredes, ao lado das samambaias, plantas que sempre me pareceram tristes. Mas as dálias amarelas me alegravam como as rosas vermelhas, os cravos grenás, os grandes girassóis. Diante deles me perguntava sobre o que sucedia dentro da terra, lá na profundidade das raízes, para que só em certa época do ano as flores nos surpreendessem com suas formas coloridas. E ia descortinando com novos achados, outros nomes: cactos, cipós, bromélias, amarilys, sempre-vivas, não-me-deixes, amor-perfeito... Descobri que tumbérgias avançavam sobre plantas mais frágeis e as sufocavam até matá-las; que havia plantas carnívoras cuja dieta era à base de insetos; que também neste reino nem sempre a convivência era pacífica e havia predadores à espreita.

Com a entrada no mundo maravilhoso da literatura, encontrei escritores de diferentes épocas, escolas e estilos olhando também com interesse para as plantas de jardim, de bosques, de florestas, de campos, de estufas; e para as que nascem em calçadas, entre pedras, rompendo com força a dureza da superfície, enfrentado desde a gênese circunstâncias adversas, como o quebra-pedra e as urzes. Vi com encantamento como poetas e prosadores extraíam do mundo verde metáforas que traduziam sentimentos.

Li embevecida a descrição que Proust fez dos pilriteiros em flor numa sebe banhada pelo luar de uma noite de primavera em Combray, e admirei o conhecimento semântico que o fez criar metáforas sexuais a partir de aspargos e orquídeas. Com igual emoção li um dia descrição que Vanessa Maranha fez de planta chamada “alegria”- tão rara e frágil! E reverenciei o profundo olhar oriental sobre as estações do ano, contempladas com lirismo pelos que fizeram do haicai um gênero. Em algum momento refleti religiosamente sobre o profeta judeu que recorreu à imagem da sarça ardente para falar de um Deus que se comunicava com os humanos de forma peculiar. E me comovi todas as vezes que recobrei Cristo lançando mão do grão de trigo para falar de morte e ressurreição, e dos lírios do campo, para alertar sobre nossa insana incapacidade de reverenciar a beleza gratuita.

“Aprende com o mundo verde o teu lugar”, escreveu o poeta norte-americano Ezra Pound. Eu acrescentaria, rememorando os fabulistas gregos e franceses: aprende também com os bichos. Nós nos consideramos superiores aos outros seres. Seremos mesmo? Há controvérsias. Tudo depende de escala, de ângulo, de capacidade para desenraizar preconceitos. Porque se de um lado o topo da hierarquia é justificado por nossa capacidade de falar, sorrir, raciocinar, fazer arte, de outro somos capazes de matar, roubar, escravizar, torturar, destruir – inclusive esperanças.

Ando pensando cada vez mais nisso e especialmente depois de ler os textos semanais que o Fernando Reinach publica no jornal O Estado de São Paulo. Parte deles estão agora reunidos no livro Folha de lótus, escorregador de mosquito, lançado pela Companhia das Letras. Em cada crônica, o biólogo e jornalista conversa com o leitor de forma apaixonante sobre o comportamento dos seres vivos. Lembrando menino curioso diante do mundo que começa a descobrir, mas com a bagagem de quem foi um dos coordenadores do projeto de sequenciamento do DNA da bactéria Xylela fastidiosa, causadora de uma doença que mata os citros, o autor nos desvela um mundo altamente organizado e surpreendente onde plantas e animais vão assumindo aos olhos do leitor uma configuração nova e instigante no espaço chamado Terra. Lendo as crônicas do Reinach, ficamos sabendo que as árvores usam canudos para beber água do solo e, se eles não estiverem completamente mergulhados no líquido, o sistema entra em colapso; que microestruturas antiaderentes livram rapidamente da água e do lodo as folhas de lótus; que há um tipo de aranha que mesmo tendo apenas um dos vários olhos funcionando, é capaz de saltar com precisão sobre sua vítima porque é dotada de um sensor que lhe garante noção de profundidade; que algumas couves liberam um cheiro que atrai vespas para ovos de borboleta depositados em suas folhas, de forma que o inseto se alimenta, a planta se livra de lagartas e ambas garantem a vida; que os beija-flores, no seu beijo de língua em pleno ar, demonstram de forma poética uma das leis da dinâmica dos corpos... Isso e muito mais estão na bela obra que traz o selo de qualidade da editora Companhia das Letras.

São 97 crônicas fascinantes, “que tratam de plantas, insetos e outros bichos, inclusive humanos”, como avalia a jornalista bióloga Maria Guimarães. Os textos curtos, ocupando no máximo duas páginas, nos seduzem de tal forma que não conseguimos parar de ler. Estou adorando! E aprendendo muito sobre a inteligência de cada forma viva que nos rodeia. Creio cada vez mais na vida una e indivisível, ainda que suas formas sempre mutantes sejam inumeráveis e perecíveis.

Nesse andar da carruagem, acabo virando budista.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras