BAGOA UPA BAGUM!

Por: Isabel Fogaça

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“No meu tempo as coisas eram melhores” balbuciou minha mãe enquanto mordia um pedaço de stake de frango, fixando os olhos no noticiário da televisão. Enquanto ela apresentava as ruas de São Paulo a mim, aos meus avós e às poltronas da sala, dizia que a terra ainda não havia sido afogada pelo asfalto quente, e as brincadeiras aconteciam de pé no chão, e sem malícia pelos adolescentes - que ela gosta de chamar de crianças - minha mãe conta que “naquela época” as pessoas dificilmente morriam de câncer ou HIV.

Enquanto maravilhosos cenários eram projetados dentro da minha cachola, meu avô interrompe: “No meu tempo as coisas eram melhores ainda”.

Então, vovô projeta maravilhosos cenários: carrinhos de madeira construídos à mão; lugares onde assassinos não existiam, e o ladrão era apenas o de galinha. Vejo um cenário ideal para minha bisavó soluçar que no tempo dela as coisas eram incrivelmente melhores.

Entre o trocar de cenários, me remeto ao homem da Idade da Pedra que tranquilamente ressaltaria “bagoa upa bagum!”. E, sim, certamente na época dele as coisas eram uma maravilha! As pessoas eram auto-suficientes, precisavam aprender a caçar para sobreviver, enquanto comiam, elas não olhavam no celular, e imaginem só: elas olhavam nos olhos! E foi assim que descobriram – sem rotular – o que era o amor.

Num futuro próximo vou cometer o vício de dizer aos meus filhos que no meu tempo as coisas eram melhores; afinal, não posso desbancar a cultura. Ressaltarei a cor dos girassóis, o cheiro da dama-da-noite, o sabor do picolé de groselha, os brinquedos costurados pela minha avó, o remédio de lombriga e o de piolho, a gostosura de escrever textos à mão, e a maravilha que era receber uma carta onde o nome era amparado com adesivos de caderno! Alguma coisa que vocês gostariam de adicionar nesta lista?
 

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