Catherine Buckley

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Quando minha filha marcou a data de seu casamento e me comunicou, mil possíveis atividades assaltaram minha cabeça e encheram minha agenda. Talvez estivesse me ocupando para não pensar, ou assumir, que ela não voltaria para casa como eu esperava um dia acontecer, que iria viver para sempre em outro continente. Seria feliz na nova vida? Haveria compatibilidade entre o novo casal? Afinal tinham origens diferentes, tinham histórias diferentes, falavam línguas diferentes. Naqueles dias eu a visitava em Londres, tive tempo para olhar vitrines, antecipar escolhas de vestidos, essas coisas que fazem parte da agenda da mãe da noiva, a parte agradável das especulações maternas. Lembro-me de estar passeando em Westbourne Grove, Nothing Hill, bairro que sempre me agradou, mesmo antes de ver o filme homônimo que Julia Roberts e Hugh Grant muito mais tarde consagrariam. Lembro-me de estar com pensamento longe olhando as típicas ruas e casas do bairro, quando na janela de uma das casas, manequim feminino vestido com rendas, me chamou a atenção. Placa, discretamente colocada, identificava loja comercial de Catherine Buckley, Designer. Apertei a campainha, me atendeu jovem senhora que perguntou se eu havia pré-notado o atendimento. Não, não havia, mas que a vitrine havia chamado minha atenção: era ateliê de alguma modista? A atendente não teve tempo de responder, senhora de cabelos ruivos presos num coque estranho e meio desgrenhado, com aplique de flores coloridas segurando a estrutura, botou a cabeça entre a atendente e o batente da porta e me disse para entrar, que ela iria me atender mesmo assim. Senti-me privilegiada. Para inglês, agendamentos para contratação são mais importantes até que o próprio pagamento do objeto vendido. Entrei. Entrei num mundo de rendas, cetins, veludos, fitas, rolos de tecidos brilhantes, pérolas. Entrei em outra dimensão. Ela percebeu meu espanto e já foi contando que suas tias eram modistas famosas, que faziam roupas para filmes de época, que ela era herdeira das tias, que muito do que estava ali eram peças herdadas, que ela nem sabia a idade dos tecidos. Seu nome era Catherine Buckley, apresentou-se. Perguntou-me sobre o que queria, disse que era meu vestido de mãe de noiva, que ela fez e constitui a peça mais valiosa que tenho em meu guarda-roupas por ter sido feita por uma pessoa que me acolheu, me ouviu, me atendeu, entendeu o que eu queria e executou, acredito que com todo carinho que pode. Catherine Buckley está no mercado desde 1963, hoje é modista famosa. Talvez até o fosse naquela época, eu não sei, mas hoje seu nome é sinônimo de reinvenção, de transformação e é reconhecida como designer influente no mundo da moda da grande tradição britânica. Sua especialidade são os peculiares vestuários vintage, como este da ilustração, que encontrei num catálogo não em Londres, mas bem distante daqui. O nome de Catherine Buckley, por causa de sua arte, hoje é referência no mundo da moda internacional.
  

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