Um banco que toca Chopin

Por: Sônia Machiavelli

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“Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado. Era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo civilizado conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma "música romântica", no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim uma arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!” Palavras do pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), ele também um mito  polonês, e dos maiores intérpretes do autor das Polonaises, dos Noturnos, das Mazurcas. 
 
Retomei o espírito dessas palavras ao assistir a um concerto em Varsóvia, no último dia 13 de julho, num dos muitos salões da cidade que oferecem a música daquele que se tornou um ícone da Polônia. Nascido em 1810 na  capital deste país, numa família onde a mãe era pianista e o pai professor de francês, Chopin foi educado na tradição de Beethoven, Haydn e Mozart- com  quem, aliás, foi constantemente comparado, desde a infância de menino prodígio, seja pela genialidade, seja pelo humor singular. Aos oito anos, quando já se apresentava nos salões, perguntaram-lhe: “O que acha que mais chama a atenção do público que vem vê-lo?” Ele respondeu: “A gola branca da minha camisa.” 
 
Formado pelo Conservatório de Varsóvia, deixou seu país aos vinte anos, indo para Paris reunir-se a um grupo de artistas autoexilados por conta de problemas políticos.  Sua música já era então admirada por muitos compositores contemporâneos, inclusive Schumann. Os anos em Paris foram marcados pela glória, mas também pelo sofrimento. Sua doença, à época tratada como tuberculose, e só recentemente diagnosticada como fibrose cística, o levou a crises terríveis de falta de ar. Mas quando recuperava a saúde, compunha febrilmente. Data deste período sua ligação tumultuada  de quase  uma década com George Sand, pseudônimo masculino da escritora Amandine Aurore Lucile Dupin, uma feminista avant la lettre.   
 
A série das sete Polonaises  publicadas durante a sua curta vida, além das nove póstumas, estabeleceram um novo padrão formal e resultaram do desejo do artista  de compor peças que celebrassem a cultura de seu país, naquele momento submetido à pressão russa. Sua Polonesa em lá maior Op.40, n°1, e a outra, em lá bemol maior, Op.53, estão entre as obras mais amadas e executadas. Trechos delas, bem como de alguns de seus famosos Noturnos e também das Mazurcas, podem ser ouvidos pelos cidadãos que caminham pelos amplos calçadões de Varsóvia e, de repente, se surpreendem diante de um banco de mármore preto, com um botão de metal num dos cantos e a palavra-chave.  É só apertar o botão e um trecho de Chopin envolve o ambiente por dois lindos minutos. Vi crianças, jovens, adultos, idosos, turistas e não turistas passando por esta maravilhosa experiência. Os bancos foram instalados há pouco tempo, como mais uma das muitas homenagens que a cidade presta a  seu grande artista. Outra são os concertos em igrejas, salas especiais, teatros, praças. Cartazes com o nome do pianista, o local da apresentação, o horário e preços são vistos por toda parte. Expressiva pela grandiosidade é a escultura em forma de mão, ao redor da qual há um palco e muitos bancos  de metal, para os que vão ao parque homônimo ouvir Chopin todas as noites de verão, interpretado por artistas locais. Por fim, um preito que me comoveu às lágrimas está na Igreja de Santa Cruz, no centro de Varsóvia. Lacrado dentro de urna de cristal, o coração de Frederick Chopin descansa dentro de um pilar branco, sobre o qual está inscrita a frase retirada do Evangelho de Mateus, e escolhida pelo compositor como epitáfio  pouco antes de sua morte, aos 39 anos: “Onde seu tesouro está, estará também seu coração”. O corpo foi enterrado no Père Lachaise, em Paris, mas, cumprindo desejo expresso à irmã que o assistiu até o fim, o coração deveria pertencer ao povo polonês. Tão forte é o símbolo que até os nazistas, quando destruíram a cidade, o respeitaram.
 
No interior da  igreja, que passa por obra de restauro externo neste 2018,  pude perceber como reverência, respeito e cuidado são qualidades inalienáveis de uma cultura que prioriza a memória, espaço essencial de compreensão do presente. E mesmo sabendo do despropósito de fazer comparações, não pude evitar de pensar nos bancos de mármore preto  que tocam Chopin: em nosso depauperado e distorcido Brasil, não durariam seis dias. A sanha bárbara que acomete parte de nosso povo começaria por pichá-los e terminaria por destruí-los. Há quem duvide? 

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