"As crianças são as vítimas dos vícios dos adultos"

Por: Sônia Machiavelli

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Para Ana Maria Flausino

 

Viajamos, desvelamos paisagens, encontramos novas maneiras de existir, nos encantamos com o diferente, o exótico, o surpreendente. Geografia, botânica, zoologia, tipos físicos, culturas, arquitetura, culinária, ofícios, arte e tantas outras manifestações humanas nos fazem abrir os olhos para o que até então ignorávamos. Ficamos de início encantados pelo novo: ah, o maravilhamento de tudo o que se vê pela primeira vez! Numa tentativa de reter esta sensação, a memória busca recolher o que a despertou, na esperança de depois resgatar. Com as novas tecnologias, que relegaram a máquina fotográfica a segundo plano na mochila do turista, a possibilidade de registar e arquivar no celular milhares de imagens dos lugares visitados só depende da disposição do viajante. E, o que poderia parecer implausível há vinte anos, acaba se transformando em rotina: capturamos uma paisagem, um monumento, um rosto, uma cena- e instantaneamente os compartilhamos com amigos que estão do outro lado do mundo. Para quem nasceu no século passado, isso é fantástico.

De volta ao espaço doméstico, por natureza o lugar da não-aventura, pesquisamos na máquina ou na mente o que mais nos impressionou. É o que tenho feito nos últimos dias, repensando a viagem que empreendi com amigos em julho. Reencontro fachadas com flores que me deslumbram sempre e são forte referência para os povos do Leste Europeu; castelos e palácios, duas de minhas paixões de criança que leu muito; igrejas de arquitetura monumental; parques verdes e bem cuidados. E, na Rússia, o complexo do Kremlim, que ansiava adentrar; as datchas citadas por Tolstói; a antiga Rua Arbat, em Moscou, mencionada entre tantos por Dostoievski; a Avenida Niévski, em São Petersburgo, tão inspiradora para Gogól que a transformou no conto homônimo... Enfim, tantas formas e cores e sensações me inundaram que, juro, cheguei a vislumbrar Ana Karenina junto a uma das pontes do Neva.

Na Babel de fotos onde por vezes mergulho desde o retorno a Franca, encontrei de repente uma que nada tem do belo fulgor daquilo que apenas seduz o olhar, o espírito, a mente, o coração. Pelo contrário; é algo que me perturbou profundamente e, talvez por isso mesmo, inconscientemente deixei repousando naquele escaninho onde devem permanecer as imagens desafiadoras até que tenhamos condição para elaborar o visto com toda sua carga dramática. Falo da obra “As crianças são as vítimas dos vícios dos adultos”, do artista russo Mikhail Chemiakin.

Ela se encontra na Praça Bolotnaia, próxima a um dos cais do Rio Moscou, ali onde algumas fontes jorram águas de diferentes alturas. O conjunto de 600 metros é composto por 15 figuras surrealistas, 13 delas desconcertantemente grotescas, criadas como um memorial dedicado às crianças que são vítimas dos vícios dos adultos. As gigantescas esculturas em bronze representam drogas, prostituição, roubo, alcoolismo, ignorância, superstição, guerra, pobreza, exploração, negação da memória, sadismo, apologia das armas. No centro, talvez a mais cruel das representações, a indiferença, de ouvidos tapados, braços cruzados, expressão impassível de quem nada vê: uma mensagem de inação absoluta, de não intervenção, de total frieza. À frente, duas crianças pequenas, leves e douradas, um menino e uma menina vendados, brincam distraídas, inconscientes dos perigos que as cercam. A alegoria teve sobre mim um efeito impactante. Despertou susto, medo, revolta, indignação, impotência e vontade de chorar.

Mikhail Chemiakin nasceu na capital da Rússia em 1943 e passou sua infância na Alemanha; mas retornou ao país em 1957, onde frequentou a Academia de Belas Artes da então Leningrado. Expulso da escola por suas concepções artísticas que não correspondiam às normas do realismo socialista, teve de executar trabalhos de pedreiro, carteiro, ajudante geral. Depois, por causa de documento que, com outros artistas, ousou apresentar ao Partido Comunista defendendo seus princípios sobre um “sintetismo metafísico”, foi obrigado a deixar a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1971. Foi para a França e em seguida aos Estados Unidos, onde desenvolveu com liberdade sua arte. Após a queda da URSS, várias de suas obras foram instaladas na Rússia, entre elas a escultura de Pedro, o Grande, no interior da fortaleza de São Pedro e São Paulo; o emocionante monumento à memória das vítimas da repressão política, às margens do Rio Neva; outro memorial para celebrar os arquitetos e construtores de São Petersburgo; além deste “As crianças são vítimas dos vícios dos adultos”, que ofereceu à cidade de Moscou em 2001.

Ao lado da escultura que é objeto desse comentário, há uma placa onde o autor explica sua obra: “Concebi e realizei a composição como um símbolo e um apelo à luta pela saúde física e mental das gerações do presente e do amanhã. “As crianças são nosso futuro!” Durante longos anos tem-se repetido este slogan ambicioso. E, no entanto, teríamos necessidade de milhares de páginas para enumerar os crimes da sociedade moderna em relação à infância. Como artista, apelo através de minha obra para que todos olhem ao seu redor para entender e tomar consciência das desgraças e horrores a que são submetidas as crianças. Antes que seja tarde demais, as pessoas de bom senso deveriam refletir sobre isso e jamais permanecer indiferentes!”

Chemiakin atualmente vive na França, onde trabalha na criação de um monumento consagrado aos franceses que ajudaram os judeus a escapar aos nazistas no período da Ocupação. Um artista como este, preocupado com as mazelas do mundo, as injustiças, as opressões, os vícios, a violência, a ausência de memória e a infância – o que pensaria de nós, brasileiros, cuja polícia pode a qualquer hora acertar um tiro num menino que caminha em direção à escola onde nunca chegará?
  

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