Bicicleta

Por: Angela Gasparetto

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Sempre quis aprender. Na infância olhava com inveja as crianças que ganhavam uma no  Natal e a exibiam pelas ruas.
 
Na adolescência abandonou o desejo porque desejos não eram permitidos. Muito menos os que se relacionavam a uma bicicleta.
 
Com o  passar dos anos, o desejo ficou ali guardado, até que se esqueceu dele. 
 
Volta e meia via alguém pedalando todo faceiro e pensava: “Ah, isto não é para mim”. “Nunca vou aprender e também agora, a esta altura da vida... Esquece!” 
 
Mas eis que senão quando, sempre que viajava para o litoral, deparava todo o tempo com os ciclistas que continuavam todos faceiros, senhores absolutos dessa arte de se equilibrar em duas rodas e serem felizes de maneira muito peculiar, maneira esta que a excluía com certeza.
 
Pensou, pensou. Namorou a situação e, encorajada, para não dizer empurrada pelo marido, começou finalmente a aprender a andar de bicicleta.
 
De posse de um presente que ganhou do mesmo, tentou timidamente aprender sozinha no quintal de casa. Ledo desejo. Não conseguia. Tanto fuçou que encontrou umas rodinhas de adulto que acoplou na bike e saiu toda faceira à noite tentando aprender.
 
Fora o constrangimento que sentia ao ver um vizinho parado no portão assistindo a seus atrapalhados movimentos noturnos, pensando com certeza que ela era uma perfeita palerma, sentia que estava fazendo uma grandessíssima coisa para sua limitada vida.
 
Bom, encurtando a conversa, depois de muito tentar, agora com a ajuda do marido, sujeito muito entendido nesta pueril arte, finalmente aprendeu a pedalar.
 
No dia em que conseguiu sair sem as famigeradas rodinhas o mundo parou. Parou mediante a sensação de liberdade e leveza que ela sentiu.
 
Então ela pedalou ferozmente pelas ruas desertas da sua cidade, desejando nunca mais parar; sentiu que este momento assemelhava à cena de fuga do amigo do ET daquele famoso filme dos anos 80. Não voou como ele, mas voou na alma, no lúdico, no tempo e na fantasia. Fantasia de criança. Criança grande.

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