As damas de prata da floresta

Por: Sônia Machiavelli

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Para Rose Torres

 

Árvores me deixam admirada, aonde quer que vá e as encontre; e toda nova espécie que conheço mobiliza meu espírito, pois meus olhos desvelam em cada  uma história singular, mais ou menos como acontece aos humanos. Viajando pelo norte da Europa descobri as bétulas, de que só ouvira falar nas lendas celtas que  na adolescência  povoavam minha  imaginação ávida pelos mundos exóticos, tão dessemelhantes da nossa cultura tropical. Lembro-me de uma história, que se passava numa aldeia eslava, onde era habitual, no começo da primavera, que o homem levasse para casa um ramo de bétula para desejar à mulher saúde e juventude em todas as estações da vida. Descobri que ainda conservam este costume nas aldeias dos confins da imensa Rússia. 

Pois são lindas, elegantes e repletas de significados as bétulas que nunca estão sozinhas e sim acompanhadas por dezenas de outras, formando comunidade peculiar. Uma bétula alcança 15 metros de altura e o que chama a atenção de imediato é seu tronco ereto, estreito e bem claro, como se tivesse recebido várias mãos de cal. Por conta da cor do caule, costuma-se plantar estas árvores ao longo das estradas, para que se tornem sinais fosforescentes quando iluminados por faróis de veículos. Só as vi durante o dia, mas pude avaliar o impacto de um bosque de bétulas à luz do luar.  Entendi porque há uma música polonesa que se chama “As damas de prata da floresta”.  E a razão da etimologia do substantivo em gaélico estar intimamente associada à expressão “branco brilhante”.   
 
Tais árvores espetaculares apareceram na superfície do planeta há mais de 30 milhões de anos e, depois das eras glaciais, foram das primeiras espécies a despertar do longo sono que lhes conferiu  condição de renascer. Isso por si só já revela uma qualidade básica a toda vida, que é a resistência, e marca uma  exemplar rentrée no reino vegetal. Aliás, continuam resistentes.
 
Suportam temperaturas baixíssimas pois em seu habitat natural os invernos são rigorosos;  se satisfazem com pouca água, já que chuva é escassa; aguentam solos ácidos até que adquiram capacidade para alterar rapidamente as condições subterrâneas. Suas raízes drenam nutrientes, em especial cálcio e sais de potássio, enquanto secretam as auxinas, que são hormônios do crescimento. E elas crescem tão depressa como os humanos na infância, além de favorecer com seus mecanismos o desenvolvimento de outras plantas. Ao equilibrar a terra onde suas raízes estão fincadas, estimula o surgimento de outras plantas, uma delas o carvalho: não só lhe permite nutrir-se como vai lhe garantindo o apoio necessário para que se desenvolva. Até que este, já adulto, passa a lhe fazer uma sombra insalubre. Amante da luz, o exemplo de generosidade sucumbe sob a ampla copa do outro. Os altruístas diriam que  ela morre feliz porque cumpriu sua missão. Poderíamos acrescentar que permanece no mundo sob a forma de objetos – uns decorativos, pois sua madeira flexível é muito procurada pelos artistas; outros utilitários, em recipientes para leite e queijo, já que sua estrutura não cria rachaduras.
 
Enquanto vive a bétula vai deleitando o olhar dos que se encantam com seu desenho esbelto e sua cor específica; produzindo seiva que, obtida por incisão no tronco, é diurética e antirreumática, segundo a sabedoria popular; fornecendo brotos primaveris para infusões que dizem curar doenças da pele. Que os ramos cheios de folhas flexíveis são preferidos pelos  finlandeses que se açoitam nas saunas em busca de perfeita circulação sanguínea, é verdade, pois vi isso num documentário exibido pela Rede Globo durante a Copa. Mas que ainda são usados pelas bruxas em suas vassouras voadoras, disso não tenho certeza... 
 
Como os seres humanos, são poucas as bétulas que chegam aos cem anos.  Em compensação, e parece que esta lei também é comum na natureza quando há maior necessidade de preservação, a reprodução é facilmente garantida pelas sementes cuja  propagação é auxiliada pela  leveza e consequente ligeireza com que o vento as toca: um grama de fruto contém mais de dez mil sementes, transportadas a grandes distâncias.  
 
Porque essas árvores  são inspiradoras, um dos maiores escritores poloneses, Jaroslaw Iwaszkiewics (1894-1980), escreveu um conto chamado Brzezina, que outro polonês ilustre, o oscarizado cineasta Andrei Wayda (1926-2016), levou para as telas com o nome de O bosque de bétulas. Os temas podem ser adivinhados : resistência e efemeridade; convivência e solidão; generosidade e egoísmo;  luz e sombra; vida e morte.  Permeando tudo, o tempo.

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