Luiz Gama, Patrono da Abolição

Por: Mario Eugênio Saturno

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No começo deste 2018 foi sancionada pelo Presidente da República a lei nº 13.629/2018 que declara “ Advogado da Escravidão do Brasil” Luís Gonzaga Pinto da Gama – Luiz Gama – já conhecido como “Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil”.

Na verdade, Luiz Gama não era advogado, foi um rábula autodidata genial, recebeu o título Advogado da Ordem dos Advogados do Brasil em 3 de novembro de 2015, 133 anos após sua morte, por seus serviços jurídicos prestados à causa abolicionista. E, na cerimônia, Luiz Gama foi representado por um descendente, Benemar França, que só veio a tomar conhecimento de seu antepassado quando estava no 2º ano do ginasial e um professor de História pediu que os alunos pesquisassem a genealogia da própria família.

Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu no dia 21 de junho de 1830 em Salvador e faleceu em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos, em São Paulo. Foi um escravo liberto que se tornou libertador de negros, pela via judicial, e foram mais de 500 escravos. Rábula, porque exercia a advocacia sem ser advogado.

Ele se descreve como filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Quanto ao pai, de quem ocultou o nome, era de origem portuguesa e seria rico, recebera uma boa herança de uma tia em 1836, tendo-a esbanjado prodigamente. Depois, em 10 de novembro de 1840, vendeu o filho como escravo.

E, assim, Luiz Gama permaneceu até 1848. Depois de aprender a ler e conhecer algumas leis, conseguiu provar que nascera livre, ou seja, estava escravo ilegalmente. Uma vez livre, exerceu diversas atividades e profissões, foi escravo doméstico, soldado, ordenança, copista, tipógrafo, jornalista, “advogado” e autoridade maçônica. Mudanças incríveis, de criança livre a escrava, de escravo a homem livre.

E também passou de analfabeto a homem de letras, com a publicação de Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, em 1859. Neste ano também nascera seu filho Benedito Graco Pinto da Gama. Somente em 1869 Luiz Gama se casaria com a mãe de seu filho, uma mulher negra, chamada Claudina Fortunata Sampaio.

Embora seja pouco conhecido no Norte do País, em São Paulo, de 1888 a 1938, em cada comemoração do 13 de Maio,  Luiz Gama era homenageado, bem como nas datas de  seu nascimento e sua morte. Era a única personalidade afro-brasileira nos manuais de instrução cívica.

Cabe ressaltar que havia outros negros que trabalharam em prol do abolicionismo, como os jornalistas Ferreira de Menezes e José do Patrocínio e o engenheiro André Rebouças. Mas somente Luiz Gama passou pela escravidão. E apenas José do Patrocínio, filho de uma escrava negra e de um padre branco, fez o relato de um breve período de sua vida em um artigo polêmico publicado em 1884 no jornal Gazeta da Tarde.

Há quem trace paralelos com outros escritores negros norte- americanos que foram escravos, Frederick Douglass (1817-1895) e Booker T. Washington (1856-1915). Não se pode deixar de observar o papel que o estudo fez na vida destes revolucionários abolicionistas, o que deve servir de exemplo também para todos nós.
 

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