Escócia

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Fui pela primeira vez à Escócia há muito tempo, acompanhada por amigos e marido.  Nem vale a pena lembrar. Fomos só a Glasgow, só pegamos chuva e vento de virar guarda-chuva do avesso.  Duas lembranças particulares. A do casal no hotel, questionando “o que havíamos ido fazer em Glasgow? Ninguém vem aqui!”, e uma igreja sombria, feita de pedras, mais antiga que o Brasil, onde alguém tocava órgão e não sabíamos quem. Marcou meu primeiro contato com as assombrações escocesas. Voltei depois, embarcada em nova fase e expectativa, há vinte anos. Viagem de trem partindo de Londres com amigas. Sem sabermos o que encontraríamos, nosso sonho secreto era encontrar num beco, numa esquina, assim de repente, ninguém menos que Sean Connery. Não o vimos, mas começou naqueles cinco dias, minha paixão pelo país, por sua cultura, seu folclore sangrento,  misto de terror, fadas, bruxas, heróis, castelos, lagos, montanhas. E monstros. E muita história. Nem me lembrei mais do 007. Naquela época o mundo ainda não turistava, era difícil encontrar estrangeiros, ainda mais na ponta da ilha bretã, já isolada pela própria topografia. Teria sido decepcionante, não tivesse me tomado de amores pelo que vi. Na verdade o passeio foi somente por Edimburgo, choveu demais, como acontece o ano todo, especialmente no Verão britânico. Frio, também. Durante o dia a temperatura sobe, mas mesmo em pleno Verão escocês, à noite pode-se vê-la cair, como se tivéssemos colocado o termômetro dentro do gelo. Desse passeio lembro-me de trilha sonora especial, porque todo Verão acontece festival de música que enche a cidade de  jovens, de flores, de  lembranças. A gaita de fole, a quantidade de kilts, saias com pregas nas costas, traje tradicional de homens e meninos escoceses, a maravilhosa melodia de Amazing Grace, o Castelo de São Jorge, tudo contribuiu para tornar inesquecível aquela curta estadia.  De outra vez, fui de carro, com filho e amigo do filho.  Viagem longa, trajeto Londres – Edimburgo – Inverness – Glasgow - Lake District – Londres. O filme Brave Heart, Coração Valente, com Mel Gibson no papel principal estava sendo filmado nas Highlands, Terras Altas, como as da ilustração. Foi quando conheci o chão da Escócia, suas estradas de tirar o fôlego de tão lindas, as florestas densas que circundam lagos misteriosos, montanhas com neve eterna no topo, ruínas de castelos mal-assombrados. Não tomei whisky suficiente para ver Ness, o monstro que ainda dizem habitar o lago homônimo. Voltei à Escócia não faz muito tempo. Novamente fiz o trajeto Londres – Edimburgo de trem, entrei outra vez pelas Highlands, conheci bairros, museus, cidades próximas que não havia visto, voltei à Fortaleza e ao Castelo, conheci monumentos, construções como o castelo real, vez por outra ocupado pela rainha Elizabeth e famíla. Edimburgo é surpreendente. A Escócia é surpreendente. Antes de voltar, para entrar no clima, revi Mrs. Brown, com Judi Dench e Billy Connolly, escocês  que desempenhava o papel do cavalariço da rainha Victoria, por quem ela se apaixona depois de amargar  profunda depressão pós viuvez. Ficou para a última linha, a maior surpresa que a Escócia me reservou, visto que somente nesta última viagem tive certeza de suspeita que me acompanhava há muito. Sim, alguns escoceses não usam cuecas sob o kilt. Como soube? Venta muito por aquelas terras altas. 

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