No espelho do tempo

Por: Angela Gasparetto

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No espelho do tempo, caminho na noite tépida e observo languidamente o bamboleio do meu corpo; vejo sua sombra refletida nas calçadas de paralelepípedos de outrora.
 
Lanço meus premeditados cabelos ao sabor de uma brisa doce e profana, cabelos estes agora tingidos desta mescla de sonhos e mudanças.
 
No espelho do tempo, ainda ouço instintivamente “Lady in Red” de Chris de Burgh; e caminho toda vestida de vermelho em transcendentes poás, naquelas noites de proibidos perfumes, mas de olhares mais complacentes. No espelho do tempo, ouço instintivamente o sussurro da vida à minha espera.
 
E ainda sinto a tontura boa das curvas da autoestrada e fecho os olhos mergulhando nestas noites de puro êxtase, nas quais a felicidade em ser mulher não era sensação “nonsense”, como a frase corrente da época.
 
No espelho do tempo, ainda diviso ao longe as luzes de uma cidade estranha, a qual resolvi denominar “fantasia”.
 
Ainda ouço na noite escura “You are something” na voz rouca de Rod Stewart e folheio distraidamente as páginas do “O nome da Rosa” de Umberto Eco, o qual vem revestido desta aura medieval de silêncios sacros e atmosfera proibida.
 
No espelho do tempo, ainda tenho olhos de menina, alma destemida e coração de criança.
E este espelho mostra-me, todos os dias, que os sonhos moram onde quisermos e, para, realizá-los basta um salto de rebeldia...
 

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