A menina e o ministro

Por: Sônia Machiavelli

385180

Não temos nenhum vínculo com a civilização helênica. Nada nos aproxima daquela cultura que continua honrando o passado de forma invejável, preservando seus monumentos milenares ao mesmo tempo em que relata períodos brilhantes da evolução do pensamento mítico, da filosofia, da história, da democracia e das artes. Mas uma coisa nos aproxima: a sinonímia de um verbete que vem da dramaturgia milenar e pode ser expressa em termos como desdita, desgraça, infortúnio, catástrofe. Estou falando do substantivo tragédia.

Quem nasceu brasileiro no final dos anos 40 e começo dos 50, vai se lembrar pelo menos de algumas tragédias que atingiram o coração do País. O suicídio de Getúlio Vargas em 54; a renúncia intempestiva de Jânio Quadros em 1961; a longa ditadura militar, 21 anos de repressão violenta e assassina, especialmente depois de 68; a morte de Tancredo Neves, internado na véspera de sua posse, em 1985, quando parecíamos enfim prestes a virar uma página funesta e começar a escrever outra mais esperançosa; o impeachment de Fernando Collor em 1992. Esses fatos políticos que estão próximos em termos de tempo histórico, viriam a desaguar em anos onde a eleição de Lula, sucedendo a Fernando Henrique Cardoso, pareciam acenar para um tempo de redução das desigualdades e de crescimento econômico. Assim se pensava, até que a Operação Lava-Jato revelou os meandros de um esquema gigantesco de corrupção voltado à manutenção do poder a qualquer preço. Outro impeachement, de Dilma Roussef, em 2016, jogou o Brasil numa situação de precariedades e levou a economia a uma desaceleração que desempregou 12 milhões de trabalhadores, 3 milhões dos quais passaram a ser chamados nos últimos meses de “desalentados”. São aqueles que, tendo buscado inutilmente uma ocupação remunerada por mais de dois anos, desistiram. Isso é tragédia pessoal, pela amplitude do número tornada coletiva.

O desalento que acomete esses trabalhadores sem trabalho é sentimento de desesperança, que mina as energias do ser humano e pode levá-lo à depressão. Sem fé, sem perspectivas de melhora, uma pessoa pode caminhar para o abatimento, a prostração. Desalento e desânimo, palavras que remetem ao campo semântico da alma e da vontade, andam contaminando também muitos de nós, que mesmo ocupados em nossas atividades, não podemos deixar de olhar perplexos para o Brasil dividido. Nas redes sociais especialmente o ódio vomita de um lado e de outro seu fel e furor.

No meio desse contexto surrealista, com candidato preso e radicalismos expostos, assistimos ainda ao avanço da violência, dos feminicídios, dos infanticídios, dos estupros de menores, dos roubos a mão armada que nos levam a uma situação inusitada, que consiste em nos aprisionarmos em nossas casas por medo de sermos atacados. Na saúde, erros e fragilidades no atendimento. Na educação pública, posição cada vez mais recuada nos rankings nacionais e internacionais de avaliação. É muita tragédia acumulada, à qual, no último domingo, veio se somar mais uma: o incêndio que consumiu um patrimônio de 200 anos, o Museu Nacional do Rio de janeiro. É perda que não tem como ser reparada, causada pelo descaso do poder público com o patrimônio do povo brasileiro.

Meu coração ficou apertado diante das cenas que a televisão mostrava ao vivo. Como era possível acrescer à nossa história recente mais uma tragédia que poderia ter sido evitada? No noticiário do dia seguinte, ao assistir à entrevista do ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, respondendo a perguntas dos jornalistas sobre falta de repasses de recursos para o Museu criado em 1828 por D. João VI, fiquei abismada com sua frieza, indiferença e deboche. Apequenou o fato, reduziu-o a dimensões de um caso corriqueiro, chamou as professoras, pesquisadoras e pessoas que mantêm um mínimo de sensibilidade e civilidade de “viúvas que choravam depois da fatalidade”. Achei o fim da picada. Também recaí no desalento. “Tem jeito mais não”, pensei. Está tudo perdido como este grande museu reduzido a cinzas.

Mas na terça-feira, vi quase por acaso uma reportagem de TV com a menina Luiza Silva Cruz, 11 anos, goiana de Valparaíso. Apaixonada por história e arte, ela havia visitado o museu no ano passado, e sabendo de suas dificuldades, entrou numa campanha em sua escola para arrecadar recursos em favor do mesmo. Vendeu números de rifas, juntou pouco mais de 100 reais, enviou-os ao museu. No domingo, quando viu as imagens do fogo consumindo tudo, chorou: “Já era, acabou”. Mas não se deixou arrasar como eu e tantos outros. Na segunda, lá estava ela na sua classe, com nova cartela e uma frase para o repórter que a entrevistou: “O Brasil é um país ótimo, que está passando pelas piores dificuldades que se possa imaginar, precisamos fazer alguma coisa”. Ela fez, e seu gesto teve o condão de me retirar do estado em que andei prostrada. “É com crianças como Luiza que nosso país há de se reorganizar e renascer das cinzas onde jaz neste momento”, pensei.

Obrigada, menina. Você deixou o velho ministro do tamanho de um inseto. Aqueceu meu coração de brasileira que tem um neto de oito anos. João vai saber de seu gesto cívico, comovente, solidário e cidadão, bem capaz de inspirar outras crianças. Se há alguma condição de reconstruir o Brasil, ela está na sua geração, Luiza.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras