Nossos lados contraditórios

Por: Sônia Machiavelli

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Quem passa pela Rue des Petits Champs, em Paris, verá no prédio de número 57 uma plaquinha indicando que ali viveu, no ano de 1754, Jean Jacques Rousseau. Tinha então 42 anos. Os franceses, como grande parte dos europeus, prezam a memória e as marcas de quem vinculou seu nome à cidade. Rousseau foi um deles. Suíço, passou parte da juventude na Itália, depois se  fixou  em diferentes localidades francesas. A  magnitude de seu pensamento, o talento para a música, a dramaturgia, a ficção, a filosofia e o ensaio, a capacidade de refletir sobre o momento que vivia e viria a desaguar na Revolução Francesa, que ele ajudou a preparar mas não viu acontecer, o destacaram no cenário conturbado do fim do regime monárquico e no contexto da Enciclopédia. 
 
Ali na Rue des Petits Champs, em uma mansarda, ele terminou de escrever seu “Discurso  sobre a Origem da Desigualdade dos Homens”, que seria publicado no ano seguinte.  Deu início a “O Contrato Social”, obra fundamental onde  formula a teoria do Estado, baseado na convenção entre os homens, e faz a defesa do princípio da soberania popular. Engendrou a escrita de “Émille”, longo e detalhado estudo a  respeito da educação das crianças, em forma de romance. Tempos férteis, mas perigosos. Essas obras, de violenta crítica ao cristianismo dogmático e ao ceticismo filosófico, foram consideradas ofensivas à autoridade. Por isso Rousseau  teve ordem de prisão expedida contra sua pessoa e, para escapar, refugiou-se em Neuchatel, capital do cantão suíço homônimo, onde continuou  produzindo febrilmente. 
 
Dez anos depois, ainda na Suíça, recebeu um panfleto anônimo que circulava em Paris  sob título “O Sentimento dos Cidadãos”, que o acusava, entre outras coisas, de ingrato e hipócrita. Ao descobrir que o texto provinha da pena de Voltaire, foi vítima de grande choque. Dizem os biógrafos que levou  dois anos para se recuperar do trauma. Acontece que Voltaire era  aquele que o entusiasmara a produzir verbetes sobre música para a Enciclopédia;  o companheiro de ideais republicanos  como Diderot e Condillac;  alvo de admiração irrestrita pela dimensão que dava à defesa da liberdade de expressão. Era o homem que bradava aos quatro cantos “Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte vosso direito de dizê-las”. O amigo,  numa atitude vil, porque escudada no anonimato, investia contra ideias que deveriam motivar defesa, pois pertenciam à mesma família semântica das liberdades do homem por ele defendidas. Para Rousseau, uma contradição  difícil de aceitar dadas as  circunstâncias particulares, sociais e históricas. Os grandes luminares tornaram-se a partir de então inimigos figadais. Mas a morte acabaria nivelando tudo, reunindo os restos de ambos, falecidos no mesmo ano, 1788 - onze anos antes da Revolução. No Panteão de Paris, numa cripta escura, as tumbas se defrontam desde o começo do século XlX. 
 
Se a contradição marcou Voltaire, pelo menos neste episódio, marcou também de forma contumaz o próprio Rousseau, em outro. Na mesma Rue des Petits Champs, onde nasceu  a escrita de Émille, ícone da nova  pedagogia, parece ter nascido também um dos cinco filhos do autor com Thèrese Levasseur, criada de hotel com quem passou a viver a partir de 1744. Ora, Rousseau é dos primeiros iluministas a contestar a forma como a criança era vista até aquele momento da história do Ocidente : um adulto em miniatura. Ele revela um olhar renovado ao expor no Émille que a criança  é um ser em formação  e “ a educação primeira é a que mais importa”. Na primeira nota do livro explica que  “essa primeira educação cabe incontestavelmente às mulheres: se o Autor da natureza tivesse querido que pertencesse aos homens, ter-lhes-ia dado leite para alimentarem as crianças”. E à parte seus  princípios baseados numa crença que se mostraria errônea, e ficou conhecida como a do “bon sauvage”, segundo a qual todo homem nasce bom e é corrompido pela sociedade, faz a certeira defesa da formação da criança no seu lar, junto aos familiares que saberiam dela cuidar, protegendo-a, instruindo-a, educando-a. Pois o paladino da pedagogia, o filósofo que descortinou a infância como período da maior importância na vida do indivíduo, destinou todos os seus cinco filhos... ao orfanato!
 
Tanto  Rousseau, como  Voltaire, pelo menos em um momento de suas existências brilhantes, repudiaram na prática a teoria que defenderam.
 
Quem chega a certa altura da vida  compreende que, na verdade, sejam gênios ou seres comuns, pessoas acabam tomando em diferentes momentos da vida atitudes e decisões carregadas de contradições e dubiedades, numa prática em tudo oposta ao discurso professado. Algumas vezes a biografia fica carregada aqui e ali por tons sombrios. Mas isso é bem humano. 

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