Quase Tudo

Por: Ligia Freitas

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Ela dava vozes aos sons do mundo.
Poder, dinheiro e sexo.
Por dentro um vazio profundo, 
Um quase nada, diante de um quase tudo.
 
Sua sina era se reinventar.
Comprou o corpo, os cílios, os cabelos 
A cor da íris, o sorriso e até o espelho.
 
Fechava os braços para os verdadeiros abraços 
E abria os ouvidos para os ecos de elogios. 
Um quase nada, diante de um quase tudo.
 
Comprava calcinhas, sutiãs, 
A ausência de rugas,
Os planos do amanhã.
 
Conquistou tudo o que queria,
O interesse, a vaidade, a maestria.
 
Era outono e as folhas caíam 
Sobre um pelado chão.
Suas mãos trêmulas buscaram 
Um lugar de esteio, 
Junto aos pés de uma lareira, pela manhã 
 
Um cigarro.
Coisa ruim também é ponto de partida.
A fumaça ziguezagueava pelas narinas
E denunciava que ela existia.
 
Seu olhar atônito se fez cansado
Diante daquela busca incessante
Por um quase nada.
 
Puxou o ar de um lado
Soltou-o para o outro,
Virou-se para cima,
Depois para baixo.
Silenciou.
 
 Um som abafado há anos no peito
Apareceu feito bicho acuado.
Era tempo de olhar para dentro.
Um quase tudo.

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