Primaveras

Por: Sônia Machiavelli

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Das atividades que animam minha semana, uma se refere ao encontro, que está completando 10 anos, com alunos da ONG “Academia de Artes”, onde ao lado de voluntários idealistas levo às crianças do jardim Elimar e adjacências um pouco do que acho importante para suas informação e formação. Tenho três turmas, duas de crianças, uma de adolescentes.

Minhas aulas de português fogem um pouco do padrão da sintaxe e do léxico, embora não os exclua. Levo textos, inclusive de escritores francanos, que estejam em sintonia com o momento. Estimulo a leitura e a interpretação, pois muito antes da última pesquisa divulgada na semana passada pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa , já havia me manifestado, neste mesmo espaço, sobre fenômeno que só deve ocorrer no Brasil: segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional, “apenas 22% dos que chegam à universidade têm plena condição de compreender e se expressar; 4% são analfabetos funcionais.”

Meus alunos, à exceção de dois, vêm da escola pública. Meu propósito é ajudá-los a usar bem a língua como comunicação factual, mas também compreendê-la como expressão de sentimentos e porta para a alteridade. Assim, lemos notícias de jornal, revistas, livros, trechos selecionados: crônicas, narrativas, frases que estimulam o raciocínio. E poesia, para inspirar.

Na semana que passou, tive enormes gratificações. Dessas que fazem a gente pensar que tudo vale a pena se a alma não for pequena, como ensinou o grande Pessoa. Porque estamos às vésperas da primavera, quis chamar a atenção deles para o fato, convidando-os a olhar a natureza. O estereótipo das estações bem delimitadas é pouco discutido, e queria esclarecê-los para o fato de que nos trópicos isso não existe. Ao contrário dos países de zonas setentrionais, nosso inverno dura poucos dias, temos apenas ondas de frio. Nossas árvores não ficam peladas e há flores lindas no inverno, como os ipês. Há dias em que o calor é sufocante, o solo fica muito seco, a poeira entra em nossas casas e até a saúde fica comprometida. Mas, quando nos aproximamos da data em que o calendário marca como entrada da nova estação, sempre chove. Pois exatamente neste momento caiu uma pancada, dessas que encharcam a terra, baixam a poeira, deixam o ar limpo quando cessam, seguindo-se chuva fininha. A porta da sala que ocupamos no nosso prédio precário fica aberta por conta da ventilação. Assim todos paramos um pouco para olhar a chuva. Foi quando um menino de 11 anos disse assim: “Minha mãe fala que esta chuva se chama criadeira, porque depois dela as plantas do nosso quintal que estão com sede bebem água e ganham força para dar flores.”

Com esse pensamento dele convidei todos a reler o poema do dia, versos encantadores de Manuel de Barros, poeta que se quis sempre no espaço da infância, nunca se permitindo ser o longevo em que fisicamente se tornou. “A árvore” nos introduz no universo de um menino que atendendo ao pedido de um passarinho aceitou ser árvore e, como tal, aprendeu “de sol, de céu e de lua mais do que na escola(...)/ o perfume de Deus(...) /melhor o azul(...)”. E “descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida / no tronco das árvores só serve pra poesia”

O poema tem apenas 16 versos e se encerra através da voz do narrador sintetizando a experiência do menino: “Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore/ porque fez amizade com muitas borboletas.”

Já perdi a conta de quantas vezes li esse poema. Em todas, me emociono. Dessa vez não foi diferente. Mas não sei se pela chuva, pela observação do garoto sobre as plantas de sua mãe, se pelo milagre que o poético pode produzir, senti no ar um silêncio respeitoso enquanto os olhinhos das crianças finalizavam a leitura.

Comecei a conversar com elas, para saber se haviam entendido. Para minha surpresa, pipocaram observações tão sensíveis e oportunas que me senti vivendo com eles um momento mágico. As almas estavam motivadas, os bons sentimentos fluíam. Quase uma hora escoou quando percebi que era necessário encerrar a aula, pois outro professor ocuparia a sala.

Perguntei por fim a respeito da casca vazia de cigarra e da utilidade da poesia. Será que a poesia era útil? Cada um falou o que pensava. Só um disse que para ele era inútil. Os outros tiveram respostas que me deixaram literalmente embasbacada : “poesia serve para a gente trazer para a vida da gente e ser melhor”; “ela me ajuda a ver o que não estava vendo”; “ela pode fazer a gente se animar quando está desanimada”; “ela tem uma coisa dentro”; “ela deixa tudo mais bonito e interessante”... Mas a mais impactante foi essa: “ela é como essa casca de cigarra com a vida da cigarra dentro”. Não sabia a menina que havia criado uma belíssima metáfora.

Saí do prédio mais alentada do que entrei, do que tenho estado nestes últimos dias açoitados pela hostilidade e pela cegueira das convicções, inimigas da verdade. As crianças continuam representando uma possibilidade de esperança a médio prazo. Um jardineiro podava galhos no canteiro do meio da avenida, prevenindo estragos que os temporais de outubro, com seus ventos, raios e tempestades, podem acarretar. Me lembrei de Cecília Meirelles, convidando-nos a nos deixar cortar, como as árvores, para que possam irromper as flores da primavera. Refletindo sobre o quanto nós, brasileiros, temos nos deixado cortar, e desejando outra chuva criadeira, que aplaque a aridez dos dias e nos devolva a serenidade necessária para ajudarmos a reconstruir nosso país, caminhei em frente, ainda que desacreditando de uma primavera que me parece, neste setembro, cada vez mais inalcançável. 

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