A 6ª Feira do Livro de Franca

Por: Sônia Machiavelli

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Tudo muda, já dizia Camões no poema célebre que retomava o filósofo Parmênides: “Mudam-se os  tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se  a confiança;/Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades.” Houve mais transformações desde o início do século XX que  nos últimos 500 anos. Tudo aconteceu  de forma muito rápida. Vivemos hoje no admirável mundo novo de que nos falaram  G H Wells e outros. A inseminação artificial se tornou comum, a medicina criou drogas que aumentaram a expectativa de vida, conectamos alguém que está do outro lado do mundo em  segundos, o GPS não deixa ninguém se perder  e até encurta trajetos com sugestões  então impensáveis. O carro elétrico já está rodando em alguns países, robôs substituem o homem em muitas atividades, falamos com outra pessoa vendo sua imagem na tela de nossos computadores, câmeras quase invisíveis nos seguem por todo lugar o tempo todo. São aspectos da evolução da história da humanidade sobre os quais os pósteros se debruçarão curiosos, como nós já o fazemos diante de um antigo aparelho telefônico que necessitava da mediação de funcionária para ligar duas pessoas que precisavam se comunicar; da imagem de Louise Brown, o bebê de proveta;  da ovelha Dolly, ser vivo clonado sob protesto de alguns; dos discos de vinil, da vitrola, da máquina de datilografia, dos alto-falantes...Sim, porque como concluiu no seu soneto o maior nome da poesia  em língua portuguesa, “E afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança se faz de mor espanto,/ Que não se muda mais como soía.”
 
A estante com prateleiras cheias de livros já nem disputa espaço com o Google,  um símile  daquela biblioteca universal com a qual um dia sonhou Jorge Luís Borges. Os sites de literatura pipocam na Internet. Narrativas digitais nos são sugeridas todos os dias. Tudo é publicável nas redes sociais. As pessoas estão cada vez mais conectadas. Mas as mensagens vão se tornando mais curtas e superficiais. Qualquer mensagem com mais de 200 toques é chamada pejorativamente “textão”. E dentro desse contexto de mudanças de plataformas, onde o analógico perdeu rapidamente terreno  para o digital, muitos se perguntam se o livro vai resistir. 
 
Por uns tempos andei pensando que não, que ele já estaria fadado a objeto de museu. Mas, diante dos últimos fatos acho que sua morte não é para já. Pois vejam só que coisa surpreendente anda acontecendo.  Apesar dos tempos de turbulência política, de economia  desacelerada, do desgosto justificado dos brasileiros, da ausência de projetos culturais capazes de motivar os jovens,  do fechamento de livrarias renomadas, eis que 2017 mostrou um crescimento de 6% nas vendas de livros. Não entro aqui no mérito do valor das obras enquanto ficção, pois grande parte dos lançamentos  pertencem a outros gêneros, que variam da auto ajuda à culinária.  Não importa. Num país onde a última Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílio (PNAD) contabiliza 13,2 milhões de analfabetos puros, ou seja, 8,7% dos brasileiros com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever; e um relatório da Unesco  registra que 45% são analfabetos funcionais, aqueles que passaram pela escola mas não aprenderam a ler nem a  escrever ou fazer contas simples, mostrando-se incapazes de entender plenamente manual  de funcionamento de máquina moderna ou ordem transmitida por escrito no local de trabalho, então  este aumento de 6% é auspicioso. Há um milagre acontecendo e isso se deve, acredito, a iniciativas que têm buscado incentivar a leitura, resistindo bravamente contra as ondas adversas. Uma dessas iniciativas, replicadas em muitas cidades brasileiras, são as feiras de livros, levando autores para a praça e outros espaços de  acesso fácil e gratuito. Ali  escritores se fazem presentes, conversam com o público, respondem a curiosidades de estudantes, mostram suas publicações, mobilizam a alma dos que estão de ouvidos abertos para a prosa e a poesia. Franca está sediando a 6ª Feira do Livro, por cuja realização se responsabilizou a Prefeitura, através da  Secretaria de Esportes, Arte, Cultura e Lazer e da FEAC- Fundação de Esporte, Arte e Cultura. Nesta edição, a Feira tem como patrona a cientista francana  Joana D’Arc Felix de Souza, indicada pela Academia de Letras em  votação unânime de seus membros. A abertura oficial aconteceu na quarta-feira, mas desde terça a Casa da Cultura e do Artista Francano “Abdias do Nascimento” esteve agitada com interessante programação. Uma Oficina de  Retórica Musical, seguida de sessão de Contação de Histórias- Contos, Mitos e Lendas da América Latina, com participação de alunos e professores da Unifran,  abriu a série de eventos. Na quarta, a Casa abrigou duas oficinas. Uma delas sugestivamente chamada de Xeque Mate e Dialogando com o Xadrez, e outra de Quadrinhos ( com Charge, Cartum e Tirinhas). Depois aconteceram  palestra  que teve  por tema “A Hora e a Vez do Conto Brasileiro” e dramatização sobre “ A Hora e a Vez da Poesia Brasileira.”
 
Quanto aos livros, foram  lançados  na quarta-feira  “Cartas Chilenas Tupiniquins”, de Ivani de Lourdes Marchesi;  na quinta, “Sobre o feminino-  reflexões psicanalíticas”, organizado por Cláudio Castelo Filho, contendo  ensaio (“O que querem os homens”) da psicanalista  Maria Luiza Salomão; na sexta, o  infanto juvenil “Théo Castiel e a semente da esperança”, de Adriana Cristina Araújo e Érica Aparecida Araújo, e do mesmo gênero, “Para Sempre”, de Cirlene Aparecida de Pádua Teixeira. Neste sábado vem a público “Milagres Cotidianos”, de Doni Ferreira, e “Violência contra Mulheres”, coletânea de textos organizada pela psicóloga Tatiana Machiavelli do Carmo Silva. No domingo,  Zélia Guardiano  autografa  “Agosto era mês aziago” e Ângela Gasparetto, “Tempo de Vento na Blusa”. Escritores de Cássia (MG) também estarão participando da Feira. 
 
No cenário das Letras, a música não poderia deixar de se fazer presente. E  o fez até este momento com artistas da qualidade do anfitrião  Diego Figueiredo, que  recebeu desde quarta, no palco da praça, nomes como Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial; Toquinho (um dos parceiros de Vinicius de Moraes) mais uma vez na cidade onde tem muitos fãs; Roberto Menescal, lembrando os 60 anos da Bossa Nova. Neste sábado, 29, a atração será Zeca Baleiro, que também já esteve cantando em Franca em outras ocasiões. Amanhã, Figueiredo, o artista francano  premiado internacionalmente, fecha o evento com os Beatbrothers.  
 
A  exemplo de outras Feiras de Livro que acontecem Brasil afora, os organizadores da nossa, que marca o início da primavera, convidaram  os músicos acima citados para se juntarem aos escritores, num gesto certeiro para atrair público e reunir artes que costumam dialogar entre si. O momento não poderia ser mais acertado. Pois, retomando palavras do jornalista  José Francisco Botelho, é numa hora dessas onde os ânimos estão exaltados e os corações perturbados, que a arte se torna “imprescindível e redentora: não uma fuga do mundo, mas um caminho de volta a ele- regresso a uma parte essencial do universo humano que a cegueira, a raiva e o fanatismo ameaçam  ofuscar.” 
 

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