Escola, apelido e lembranças

Por: Bruno Cunha

386647

Em pé, com as costas na parede do mercadinho de um amigo, observo os carros que cruzam a interseção das ruas a minha frente. Um desvia do buraco, o outro não obedece ao ‘pare’, o que sobe abusa da buzina, os dois se xingam e a vida segue. Meus amigos conversam. Ouço tudo com uma atenção distanciada. De dentro de um carro me vem um grito seco e cheio de vogais: “Ô Cunha”. Cunha é o meu nome do meio e também meu apelido de escola. Alvo de trocadilhos inimagináveis,  tive a sorte, graças ao desencontro de épocas, de não ter meu nome conexo ao do tinhoso deputado. Embora sem nenhuma ligação, seria pior ouvir que ele era meu parente do que a canção que dizia que eu coçava o orifício excretor com a unha. Crianças! Mas, confesso, mais incomodei do que fui incomodado.

 
Cunha! Há muito ninguém me chama assim. Na oitava série tive que mudar de escola e no ano seguinte outra vez. Daquele momento em diante ninguém mais me chamou de Cunha, salvo raras exceções. Outras escolas. Novos amigos. Outros apelidos.
 
Engraçado como algumas coisas nos marcam profundamente. Ao ouvir o grito, antes mesmo de reconhecer o rosto, eu já sabia: era alguém dos anos de 
“Ana Maria Junqueira”. Não tinha consciência da importância que esses anos tiveram sobre mim. Lembro  do professor Nelson e de sua carranca habitual. Da olimpíada escolar de 1996 – ano das Olimpíadas em Atlanta. Participei do salto em distância. Não ganhei nem o bronze. Lembro das guerras de limão no campo de futebol; das acerolas, ameixas e pitangas. Do campeonato de pipa, da comida da tia Cida, dos infinitos ditados da professora Neibe, dos estojos que sumiam momentaneamente e dos “autógrafos” no uniforme no último dia de aula. Que época!
 
O nome do meu amigo é Danilo. Nos  vimos pela última vez há quatorze anos, assinando uniformes e jogando futebol. Tentei encontrá-lo pra saber como está. Não o encontrei. Muitas lembranças vieram com aquele grito e ele nem imagina o bem que me fez. Por isso e por tudo, obrigado! E apareça.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras