Alma em festa

Por: Angela Gasparetto

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 Agora na maturidade sinto desejos repentinos de me enfiar em um vestido branco, todo de algodão e sair por aí com meu chapéu velho, minhas sandálias de preferência franciscanas, de maneira a ser fiel a este modo espartano de vida, onde o básico é sinônimo de desapego e o estilo beira à santidade. 

Mas já adianto, não almejo ser santa, longe disso, almejo essa paz serena, permeada de silêncios sábios e reencontro com meu eu mais profundo.
 
Desejo caminhar descalça pela casa solitária, fazer meu próprio café e mergulhar em uma cálida leitura de Machado de Assis; de preferência ouvindo apenas o vento que atormentava a personagem Bibiana no livro “O tempo e o Vento” de Érico Veríssimo, fechar minhas janelas internas e desligar meus ruídos ancestrais. 
 
Quero que toda chuva tenha cheiro de terra batida e que toda luz possa ser a do amanhecer, até porque a vida renasce nessa hora.
 
Agora na maturidade sinto que o sabor das coisas tem um toque mais aguçado e viver tornou-se um degustar do cotidiano; onde mover-se devagar e executar as tarefas quando lhe aprouver é recompensa devida a quem há muito já removeu as pedras do caminho.
 
Atualmente não seguro mais o coração em brasa ou a alma engaiolada em labirintos de autoflagelo. Pelo contrário, agora carrego uma infinidade de pequeninos  encantamentos pueris, de sorrisos misteriosos pelas possibilidades que se anunciam e de alegrias infinitas pelo simples ato de viver... 
 
Agora, essa minha alma em festa, procura percorrer apenas os caminhos que levam ao entendimento universal do que é realmente importante, que são aqueles feitos de delicadezas ancestrais, de gestos inusitados, de singeleza no olhar e de opção aos que são únicos e raros nesta vida, os de coração puro.
 
E sigo ouvindo o vento ao longe; tendo o coração em paz com a plena certeza que a vida é feita de desapegos, de calmaria e de recomeços, sempre!

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