A angústia em close-up

Por: Luciano Bonfante

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Luciano Bonfante, psicanalista, membro filiado da SBPRP

Ingmar Bergman nasceu há 100 anos, completados em julho último. Foi ao imaginar-se no cinema, enquanto brincava com lanternas no escuro do armário onde ficava de castigo, que surgia o interesse pela sua arte, confirmado ao cobiçar um presente natalino dado ao irmão e tomando para si na barganha com ele por soldadinhos de chumbo: o cinematógrafo, um rudimento de projetor de filmes. E a magia se estenderia por cerca de sete décadas. O cineasta sueco é um dos mais importantes artistas da história da sétima arte. Fazia “cinema de autor”, pelo total domínio de suas produções. Observador arguto dos absurdos da vida, ele era capaz de extrair interpretações marcantes de seus atores, imprimindo no espectador impressões memoráveis. Criava personagens complexos, mostrando o ser humano em suas dimensões psíquica, existencial, metafísica ou teológica. Bergman conseguia filmar o vazio existencial, a solidão humana, o conflito do homem com a crença divina como nenhum outro cineasta. Tratava as próprias angústias por “demônios interiores” e os encenava sem o menor vestígio de pieguice.

Produziu obras primas como O sétimo selo, cuja icônica imagem do cruzado jogando xadrez com a morte é a mais associada ao seu cinema. Também Luz de inverno, A fonte da donzela, Mônica e o desejo, Persona e, o mais autobiográfico, Fany e Alexander. Citar títulos pode ser injusto com uma obra vultosa como a de Ingmar Bergman.
 
Uma de suas marcas na direção era o uso de close-ups. Close-up faz parte do léxico de direção de cinema e designa o movimento de câmera de aproximação, em um plano, de um único objeto. É um recurso técnico caro a esse cineasta, conhecido por usá-lo sem economia nos rostos dos atores, cujos personagens expressam suas dores anímicas, em especial no filme Persona. Prolífico, o trabalho era sua razão de viver, segundo dizia, e nos legou cerca de 70 filmes, só para mencionar seu trabalho no cinema. Era também dramaturgo, diretor de teatro e TV. É difícil dimensionar sua influência, mas ela ocorre em cineastas do mundo todo, como Woody Allen, Lars Von Triers, Michael Haneke e Andrei Tarkoviski, este último admirado pelo próprio Bergman.
 
Todo esforço descritivo em apresentar Ingmar Bergman será insuficiente. É através de suas lentes de ver mundo que o conhecemos. De atmosfera onírica, seus filmes se revelam a cada revisão. São densos, profundos e enigmáticos. Permanecem instigantes e misteriosos, indecifráveis em sua totalidade como acontece com a autêntica obra de arte. A dura autocrítica do homem atormentado que foi o fazia lançar frases injustificadas como “sou um pedante administrador do indizível”. No entanto, ele mesmo nos afirma que encena a vida, e qualifica um filme como sonho. E é com o sonho que ficamos. A magia permanece.

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