Singular, plural

Por: Sônia Machiavelli

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(Para Valentina Bordini)
 
 
Aberta no dia 7 de setembro, com data de encerramento marcada para 9 de dezembro, a 33ª Bienal de Arte de São Paulo tem curadoria de Gabriel Perez-Barreiro e oferece ao olhar do público obras de 100 artistas do Brasil e do Exterior, no conhecido pavilhão concebido pelo arquiteto Oscar Niemeyer  dentro do Parque Ibirapuera. A entrada é gratuita.
Nomeado "Afinidades Afetivas", o maior evento de arte contemporânea da América Latina   exibe modelo alternativo, eximindo-se de impor um grande tema. Assim, ao privilegiar o olhar dos artistas sobre seus próprios contextos criativos, estimula e valoriza também a  experiência individual dos visitantes. No total são 19 exposições-  doze projetos individuais e sete mostras coletivas organizadas por artistas-curadores.
 
Ao ser indagado sobre a razão de realizar uma Bienal sem tema, Barreiro diz que “quis ser questionador. Nem sempre a Bienal teve tema, é algo recente. A curadoria pode ser uma limitação se as obras precisam se alinhar ao tema, é mais interessante que sejam livres.”
 
Para espíritos mais questionadores, uma pergunta se impõe diante da explicação do curador associada à imagem que o título evoca, pois aparentemente ambos parecem se opor.  Ele responde em entrevista publicada  no “Guia Especial” à disposição do visitante na entrada do pavilhão: “A inspiração para o título vem de duas fontes, de Goethe (autor do romance “Afinidades Eletivas”) e também de  um texto de Mário Pedrosa. Esses conceitos mudam a relação das pessoas com as obras. É um modelo mais humanista, menos de cima para baixo”. O arquiteto Álvaro Razuk parece ter entendido o propósito do curador pois o traduziu criando “ilhas” para os artistas curadores e para os projetos individuais. Isso  enseja  ao visitante pensar num “arquipélago”  do qual faz parte o próprio Pavilhão “Ciccillo Matarazzo.” As obras estão separadas mas ao mesmo tempo reunidas e algumas dialogam com o prédio, como é o caso de “O Pásssaro Lento”, de Cláudia Fontes. 
 
Dentro desse espírito, a Bienal oferece um mapa, mas não impõe trajetos. Ele é apenas uma sugestão para que o visitante empreenda  viagem lúdica, poética, onírica e social pelas obras, de acordo com sua vontade, seu ritmo, seus gostos. 
 
Chamaram  minha atenção a escultura “A Vontade e o Outro”, leitura de Lúcia Nogueira sobre objetos descartados- estrados de sofás e almofadas;  a pintura “ A gente conversava aqui”, de Vânia Mignone-  mesa retangular com cadeiras e sem pessoas, evocando um clima apocalíptico,“ o fim do mundo como a gente conhece, fim das nossas certezas e seguranças”- segundo palavras da artista. Gostei de ver Tunga, o escultor célebre morto em 2016, homenageado por colegas como  Sofia Borges e Waltércio Caldas, este prestando  ainda tributo a outro grande que partiu há pouco, Antônio Dias. E fiquei surpresa ao me deparar com Victor Hugo, sim, ele mesmo, o autor de “Os Miseráveis,” ali presente como capista de seus livros. São ilustrações abstratas e de forte impacto visual, revelando um ficcionista e poeta que não se satisfazia  apenas  com as palavras e usava  o desenho para  ajudar na tradução de  suas emoções. As reflexões mais instigantes vieram da instalação “Ilha Brasilis”, no terceiro pavimento. Cristais e ametistas  nos remetem a tesouros debaixo de nossos pés. Segundo Denise Milan, que elege as pedras como material de trabalho, “nossa espécie precisa entender outros valores que falam de estruturas mais perenes: as pedras são estruturas que sobrevivem”. 
 
Toda Bienal costuma trazer uma obra de maior impacto. É aquela que se torna mais comentada e por isso acaba atraindo mais público. A deste 2008 é sem dúvida “Vivan los campos libres”  do artista espanhol Antônio  Ballester  Moreno. Trata-se de uma instalação formada por pinturas em juta  que representam diferentes aspectos da natureza,  em interação com milhares de cogumelos de barro cozido. Sendo  cada um de tamanho, cor e características singulares, é do conjunto das diferenças que nasce a beleza. Uma placa de identificação ao lado informa que a obra “é inspirada  no modo como a combinação de certos elementos produz outros, assim como a terra, o sol e a chuva criam cogumelos.”
 
“ Vivan  los campos libres” ocupa boa parte do térreo do pavilhão e tem sido ponto de partida e chegada dessa viagem  da qual saímos enriquecidos.  Além dos aspectos estéticos, há outro, social, comovente e inspirador: os cogumelos foram feitos em oficinas por  alunos de cinco escolas da rede municipal de ensino de São Paulo, localizadas em bairros periféricos (Aricanduva, Vila Curuçá, Capão Redondo, Butantã e Pera Marinho), e de uma particular, Alecrim. É portanto trabalho coletivo, que pela harmonia pode ser compreendido como mensagem de esperança neste momento que atravessamos, de muito pessimismo em relação aos destinos de nosso país. Diante dos ódios e da fragmentação, a arte se mantém soberana  na sua capacidade de promover recuperação do alento e, apesar do solo árido da realidade, de lembrar como a imaginação pode  tecer  novos padrões, continuamente.
 
 Uma  frase de Antonio  Ballester Moreno ressoa em minha mente enquanto recupero a imagem  acima  para apresentá-la aos leitores: “ Somos criadores de nosso próprio mundo.” 

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