Trem das Onze- Uma viagem pelo mundo de Adoniran

Por: Sônia Machiavelli

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“De tanto levar frechada do teu olhar/Meu peito até parece sabe o quê?/Táuba de tiro ao álvaro/ Não tem mais onde furar/(não tem mais!)//Teu olhar mata mais do que bala de carabina/Que veneno estricnina/ Que peixeira de baiano/Teu olhar mata mais que atropelamento/ de automóver/Mata mais/ que bala de revórver”
 
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“O Arnesto nos convidou prum samba/ ele mora no Brás/ Nóis fumo/ Num encontremo ninguém/ Fiquemo cuma baita de uma reiva/ Da outra veiz nóis num vai mais/ Nóis num semo tatu”// No outro dia encontremo com o Arnesto/ Que pediu descurpa/ mas nós num aceitemo/ Isso não se faz, Arnesto/ nóis não se importa/Mas você devia/ter ponhado um recado na porta”
 
Estes dois sambas hilários, letra e música de Adoniran Barbosa (o primeiro, em parceira com Oswaldo Molles; o segundo, com Alocin), sempre ouvidos com prazer pelos brasileiros da faixa etária dos -enta, mas também por todos aqueles que, ainda jovens, aplaudem música autoral de qualidade, foram  vetados, junto a outras três canções,  pela censura federal da ditadura militar em 1973. Nos pareceres assinados por Eugênia Costa Rodrigues, a justificativa ao veto: “a falta de gosto impede a liberação das letras”.
 
A funcionária encarregada pelo general de plantão a decidir o que podia ou não ser publicado, não entendia patavina de linguagem coloquial, de criação literária, da estupenda inovação que representava levar a fala cotidiana para composições musicais. Segundo ela, para serem aprovadas as letras deveriam ser corrigidas a partir dos títulos que se tornariam “Samba do Ernesto” e “Tiro ao Alvo.” Nada de “tauba”, “revórve”, “artomove” etc...  Ditaduras têm dessas cretinices. Salvou o artista, e o público, o fato de que os sambas haviam sido gravados na década de cinquenta, não eram  inéditos, a intenção seria apenas incluí-los em novo álbum.
 
Muito antes do golpe de 64, Adoniran Barbosa tinha feito sua opção por uma linguagem que traduzisse o ritmo da fala paulistana, mistura de português eivado de influências de imigrantes e, fortemente, dos diversos sotaques dos italianos da grande colônia radicada em São Paulo. Na contramão da  história do samba, rejeitava  o estilo dos compositores que nunca erravam na concordância, abusavam das metáforas românticas, elegiam o idioma castiço como se a forma elevasse o valor dos sentimentos. E, como já disse alguém, “se a linguagem determina o próprio discurso”, os tipos humanos que o dele consubstanciou formaram  no seu repertório um painel da precária cidadania brasileira: os despejados das favelas, os moradores das malocas, a operária atropelada, os engraxates, o malandro, a mulher estigmatizada, os bêbados, os sem-teto, os solitários, os excluídos que vagavam pelas ruas ou se encostavam em balcão de bar... Nascia ali uma nova estética; surgia o samba paulista. Entretanto, se  o olhar arguto de Adoniran Barbosa o levava a retirar da realidade tipos tão humanos de forma compassiva, também o orientava a equilibrar a amargura dos dramas com algumas doses de humor e  um sentimento de amor à cidade, conhecida então como “terra da garoa”, fenômeno meteorológico que a poluição baniu. Surgia assim um clássico: “Trem das onze.” 
 
E  “Trem das Onze- Uma Viagem pelo Mundo de Adoniran”, no Farol Santander, em São Paulo, é exposição que convida ao olhar, aos ouvidos, à memória. Inaugurada em julho e aberta ao público até o final de dezembro, organiza-se em dez salas temáticas, cada uma retratando ambiente que fixa com  plasticidade elementos da vida, da carreira e das canções de Adoniran. Na “Sala Trem das Onze”, onde chama a atenção  miniatura de estação, o público tem lugar para sentar e ouvir músicas  reproduzidas a partir do toque num botão na parede. A “Sala da Garoa”, toda azul, com piso espelhado e tubos de plástico presos ao teto junto a guarda-chuvas abertos, acolhe imagens fotografáveis pelo reflexo do piso. A atuação do ator  no rádio, onde manteve por três décadas um programa de humor protagonizado pelo personagem “Charutinho”, é toda recontada em um recanto rico de  detalhes. A carreira como artista na TV e no cinema é esmiuçada em outro, que inclui exibição de trechos de seus trabalhos, como o filme “A Carrocinha”, onde contracenou com Mazzaroppi e Dóris Monteiro; e também o projeto de filme de Lima Barreto que nunca foi rodado- “Os Sertanejos”, baseado em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, no qual podem ser vistos o roteiro e fotos de Adoniran caracterizado para o papel. Por outras salas muitas fotos (uma maravilhosa, com Elis Regina),  pôsteres, peças diversas, objetos pessoais, discos, troféus, letras de música (do próprio punho), partituras originais (inclusive “Bom dia, Tristeza”, com Vinicius de Moraes), chapéus, trajes, acessórios-  como os emblemáticos cachecol de lã e gravata borboleta. Quase no final, o espaço onde se espalham protegidos por vidro documentos como CIC, RG, Carteira do Ministério do Trabalho e Previdência Social (contendo os períodos em que o artista trabalhou e quanto ganhava nas Rádios Record e Difusora).Trechos de scripts de quando o compositor era radioator justificam depoimento a programa  de entrevistas: “Não foi fácil para mim entrar de compositor. Foi difícil, porque ninguém queria nada com minhas letras que falavam “nóis vai”, “nóis qué”, “nóis fumo”, “nóis peguemo”. 
 
Fechando a Mostra, numa sala regida pelo espírito lúdico que na maioria do tempo governava o artista, encontram-se brinquedos que confeccionava para crianças e miniaturas de bicicletas, bibelôs, cigarreiras, enfeites, parquinhos de diversão, rodas gigantes, carrosséis  e trens de ferro movidos a eletricidade. São objetos do período em que, afetado pelo enfisema que o levou à morte aos 72 anos, em 1982, expressou com as mãos sua impressionante capacidade de criar. Quando já não lhe era mais possível cantar seus sambas e levar aos ouvidos do povo seus personagens e seu mundo, inventou aquela pequena arte com materiais descartáveis- pedaços de lata, plástico, barbantes, lã, botões, carretéis, madeira. E porque a  realidade não lhe era suficiente, ou talvez suportável, o artista que hoje seria chamado multimídia passou a traduzir o cotidiano  de outra forma. Genuína como as demais com que marcou sua passagem pelo mundo. 
 
Todo o acervo que compõe a Exposição, no 19º e 20º andar do Farol  Santander (rua João Brícola, 24, ao lado do Mosteiro de São Bento), estava encaixotado há dez anos, desde a Mostra “Adoniran Barbosa- Prova de Carinho”, no Conjunto Cultural da Caixa. Todos os itens, que passam do milhar, eram mantidos na Galeria do Rock, depois que familiares tentaram expô-los diversas vezes sem sucesso. Que bom ter o Santander percebido a importância do artista e encarregado curadores competentes e sensíveis para organizar esta exposição histórica e sentimental pelo que permite ao público resgatar lembranças e mergulhar na trajetória  do grande Adoniran Barbosa.
 
É bom lembrar que antes de se tornar ator de rádio e cinema, autor de scripts, humorista, compositor, cantor e artesão, ele se chamou João Rubinato, nasceu numa família de imigrantes italianos, viveu a infância na pobreza, foi entregador de marmitas, varredor de piso de fábrica, tecelão, pintor, encanador, serralheiro, garçom... Tais atividades lhe forneceram elementos para formatar seus tipos inesquecíveis e suas narrativas humanas levadas para as canções tornadas clássicas. Diante de sua biografia, penso mais uma vez que é na falta que se cria. 

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