"Só a morte é democrática"

Por: Sônia Machiavelli

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Vamos entrar na última semana de outubro, mês emblemático neste  2018 onde a palavra democracia (e  seus cognatos) foi tão maltratada pelos políticos brasileiros.  Mas a frase que  tomo emprestada para título desta crônica é de um mexicano, o artista José Guadalupe Posada. Pintor e gravador, a ele se atribui  a reinvenção de um dos maiores expoentes da cultura oral de seu país referente ao Dia de Los Muertos, ao qual nós, colonizados por falantes do português, chamamos Finados. Estou me referindo à Calavera Garbancera, a Caveira  de mulher em roupas de gala, usando o indispensável chapéu enfeitado, característica de distinção social, às vezes se divertindo com taça de pulque nas mãos. Ela é a protagonista da festa  mexicana que dura  três dias-de 31 de outubro  a 2 de novembro.  “Garbancera” (literalmente vendedora de “garbanzo”, grão-de-bico) era o nome pejorativo dado às pessoas  que buscavam aparentar uma origem europeia, renegando raízes e cultura nativas.
 
Antes de Posada, seu amigo e parceiro de oficina  Manuel Manilla havia resgatado a imagem icônica da Caveira, já muito presente entre o povo, para participar de concurso promovido por jornais sobre o tema, o que atesta uma tradição bem antiga no país. Várias publicações do começo do século XIX exibiam essas imagens satíricas como crítica velada à desigualdade social em nação onde a maioria mestiça era  oprimida pela minoria de sangue  europeu. Depois de Manilla e Posada, foi o célebre Diego de Rivera quem levou a personagem para algumas de suas obras, batizando-a Catrina. Como tal, a Caveira aparece pela primeira vez no mural Sueño de una tarde dominical em  la Alameda Central. Pode-se ver na composição a Caveira ao lado de Posada, tendo atrás Frida Khalo e à frente  Diego  em versão criança, todos acompanhados por um grupo que representa extratos da sociedade mexicana. Inaugurado em 1949, o mural era a peça mais importante do hall do Hotel del Prado, até que um terremoto atingiu a cidade do México  em setembro de 1985 e abalou as estruturas do prédio. A obra foi transportada para a esquina das ruas Balderas y Colón;  depois, ao seu redor, surgiu o Museo Mural Diego Rivera
 
Catrín em espanhol seria o correspondente ao dandy dos ingleses, portanto o feminino, Catrina, sinônimo de mulher chique, refinada, high society. Mas ela atende também por outros  nomes:  la calavera, la dama de velo, la huesuda, la sin dientes, la matadora. É a protagonista  das festas que lembram que o encontro com a morte é algo que os mexicanos encaram com singular bom humor. O clima é de alegria, pois acreditam que nesta ocasião os mortos voltam às casas que habitaram e então é preciso que encontrem tudo de que gostavam: pratos, frutas, doces, objetos, flores, bilhetes amorosos, etc. Montam-se nas salas  altares onde fitas coloridas se movimentam com o vento, muitas velas são acesas, bons aromas se expandem a partir de vasinhos com água perfumada. E a figura da Catrina aparece por toda parte, inclusive  sob forma de caveirinhas de açúcar, indispensáveis nessa celebração. Nas ruas há paradas com gente fantasiada: no primeiro dia, dedicado às crianças que morreram, a festa  exibe  ares infantis; nos dois seguintes , tudo é preparado para as almas dos adultos...  
 
A extensa produção gráfica de Posada, estimada em mais de vinte mil gravuras, foi posteriormente classificada pelos críticos como expressionista, pois recria com extraordinária imaginação, forte sentido  humorístico e profunda capacidade crítica, as misérias sociais, os abusos dos poderosos e a corrupção dos políticos de sua época. “Pai das Caveiras”,  sempre que indagado a respeito da sua criação, argumentava que " só a morte é democrática, já que, afinal de contas, feia ou bonita, rica ou pobre, poderosa ou miserável,  toda pessoa  nunca fugirá ao seu destino, que é o de virar uma caveira, um esqueleto". E completava: “ A gente tem de ter sempre presente o memento mori.”
 
 (Reza a lenda que na Roma antiga, quando um general ganhava uma batalha, desfilava  pelas vias  em grande triunfo. Era momento de glória máxima . Mas, atrás dele, para que não se inebriasse com o sucesso e se lembrasse de que toda ascensão trazia em si o germe da queda, um escravo sussurrava no seu ouvido  “Memento mori”, frase latina cuja tradução é “Lembra-te de que és mortal”.)
 
Com sua personalidade travessa, espirituosa, simpática e quase sempre muito sensual, a Catrina nos convida a viver plenamente cada momento, já que tudo é efêmero e o que acumulamos fica por aqui quando nos despedimos do mundo material. Fisicamente somos saco de ossos e vísceras revestido de nervos, contidos por pele, irrigados por sangue. Muitas vezes apenas navegantes sem bússola  num oceano  de travessias complicadas. Mas, no  continuum da vida, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. Tudo passa. 
 
Passam o dia, a semana, o mês. Passa até uma horrenda campanha eleitoral marcada por fake news,  falta de projetos,  baixaria de vídeos ( pornôs!),  cegueira contagiante, ódio explícito, acusações apócrifas, escárnio, violência, fanatismo, polarização, desrespeito à memória recente, ausência total de autocrítica, apologia de crenças contrárias ao humanismo, à civilização.
Ciclos se fecham, outros se abrem. Neste domingo, encerrada a votação, apuradas as urnas, novo capítulo começa a ser escrito na história do Brasil. E nada será simples ou fácil –  ganhe um, ganhe outro. Porque de ilusão ninguém vive e os desafios que estão colocados diante de  nosso país são gigantescos. 

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