Fusca azul

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Junto com o rock, a minissaia, Roberto Carlos, Bee Gees, Beatles, os filmes em Cinemascope e a superprodução O Mando Sagrado, a Rural Willys da Ford fez parte do cenário dos anos 60. Tínhamos um fusca azul, que era de minha mãe e a perua idêntica à da foto que pertencia a meu pai. Polida e limpa após as pescarias de papai, servia de transporte para as Cinderelas da casa, minha irmã e eu, irmos aos bailes, devidamente acompanhadas por mamãe e escoltadas pelo irmão número três, já que o caçula ainda era bem pequeno. Íamos a Uberlândia visitar os avós maternos, íamos às fazendas e beiras de rio, meu pai a usava para suas pescarias em lugares mais próximos, já que lá para os lados do Araguaia, ele ia de caminhão. A Rural era polivalente. Era utilitário, mas pra nós, carro de luxo, já que no Fusca, só as anáguas das duas Cinderelas ocupavam o banco traseiro inteiro, nos dias de gala. Mais tarde, vê-la transitando era raríssimo, porque foram substituídas por carros mais modernos, mais aerodinâmicos, até mais potentes. Foram desaparecendo, passaram para o folclore da família. Uma tarde ouvi buzina insistente na porta de casa. Grata surpresa, era minha amiga Dudu do Val, na direção da irmã gêmea da Rural da minha família. E a foto foi feita. Aparecem nela, a própria Dudu, meu filho Téti de short amarelo, e moletom vermelho, segundo os irmãos com o cordão do agasalho combinando com o resto da roupa; minha mãe que atravessou a rua e veio posar para a posteridade; eu e meu filho caçula, que na época vivia pendurado em mim. O tempo passou, minha mãe partiu; Dudu e eu continuamos amigas; Téti abandonou as cores vivas, já é um profissional sério; eu não sei se ainda consigo subir no capô de algum carro; e meu filho caçula virou um homem prestes a ser chefe de família. E a Rural Willys, de tantas lembranças, virou peça de museu.

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