Capivara Velha

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Numa pequena cidade próxima a Aramina, progressista cidade do Estado de São Paulo, havia uma igreja voltada para a praça central, bastante arborizada, com um pequeno coreto encravado no meio de diversos canteiros de flores variadas e muitas rosas. O terreno da igreja era grande e os fundos terminavam em um córrego que banhava um lado da cidade. Para aproveitar o espaço, o padre, que já estava há muito tempo no povoado, formou um pequeno pomar com muitas laranjeiras, mexeriqueiras, bananeiras, jambeiros, abacateiros e diversas outras variedades, e, mais próximo ao riacho, por época das chuvas, ele plantava uma pequena lavoura de milho, para as beatas fazerem pamonha, curau, canjica, bolo etc., que ele mandava distribuir às pessoas carentes.

Mas, para testar sua benevolência, quis o Senhor que alguns filhos irracionais também se aproveitassem da lavoura. Assim, um bando de capivaras, liderado por um animal maior e mais velho, aquerenciava-se de aproveitar tão apetitosas plantas verdinhas, antes mesmo de granarem as espigas ao ponto de pamonha, deixando um rastro de destruição, malgrado os foguetes e rojões que o padre soltava na direção do bando para espantá-lo.

O padre, em conversas com seus fiéis, deixava transparecer a sua insatisfação com tais percalços, pois o estrago era grande e sempre minguava a quantidade de delícias que ele poderia servir ao seu rebanho. Alguém lhe disse conhecer um rapaz que morava a algumas léguas da cidade, residia sozinho, e sua vivência era pescar e caçar para subsistir e, se lhe rendesse alguns trocados, poderia dar cabo do chefe do bando destruidor de lavouras alheias. O pároco, perdendo um pouco de amor às moedas arrecadadas durante as missas, concordou que se chamasse o tal caçador.

Feito os ajustes no acordado, o moço ficou de butuca, após preparar seu esconderijo próximo à margem do ribeirão, no lusco-fusco do fatídico dia. Também dia de missa na igreja.

O padre, todo paramentado, iniciou a missa, com todos os fiéis em seus lugares, centrados no mistério da fé. A missa transcorreu normalmente, mas na hora da Distribuição da Comunhão, formou-se uma fila, onde os fiéis concentravam-se para receber o Corpo de Cristo. Na fila encontrava-se uma senhora de uns sessenta anos, muito forte, um pouco rude, acostumada às lides da roça, filha de italianos importados. Quando chegou a vez dessa senhora, o padre, embora concentrado no seu mister, ansiando pelo desfecho da caçada, ao dar a comunhão a ela, colocando a hóstia em sua língua e mencionando “o Corpo de Cristo”, ouviu-se o estampido de uma espingarda cartucheira 28, que troou por todo o templo, o padre gritou: -MOOOORRREEUU CAPIVARA VELHA. Em menos de um segundo o ouvido esquerdo do sacerdote levou um pescoção com a mão espalmada e calosa, que ele foi cair aos pés do sacristão, que o acudiu e fê-lo levantar ainda bastante tonto.

Depois de acalmados os ânimos, encerrou-se a missa e cada qual rumou às suas casas, comentando galhofadamente o ocorrido, esquecendo-se totalmente da falecida capivara. O padre recolheu-se aos seus aposentos e, dizem, que até hoje ele escuta o badalo do sino dobrar em sua cabeça.

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