Os bichinhos de pelúcia

Por: Angela Gasparetto

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No fundo de um armário velho, lá estavam eles, seus bichinhos de pelúcia. Há muito os procurava para tentar trazer um pouco do carinho que sentiu quando os ganhou do amor da sua vida.

Depois de muito procurar, fuçar em tudo, os encontrou naquele armário velho, socados dentro de um saco plástico meio sujo.

O coração se alegrou. Quando abriu o saco, lá estavam eles todos amarelados, com a ternura estática, aparentando uma fragilidade da qual ela não se lembrava.

Pobres ursinhos, coelhinhos, gatinhos e até um leãozinho rajado! Abraçou-os com a emoção do reencontro, com o agradecimento do carinho recebido há muitos anos.

Remexendo, remexendo, encontrou o primeiro bicho que ganhou. Era um ursinho de uns 30 cm, branco, olhos de chinês sábio, vestido com uma jaquetinha vermelha estampada com a mensagem singela de “Amo Você”.

Seu coração exultou com o encontrou do velho amigo querido. Pensando bem, este ursinho tinha uns 20 anos. Teve que defendê-lo de muitas crianças da família e principalmente da sobrinha de três anos que perdidamente apaixonou-se por ele. Disse com o olhar esperançoso: “Seria bom se tivesse um assim” e o seguia pela casa com os olhos vidrados e com o sorriso também estático.

O pobre ursinho nunca teve nome. Ficou sendo guardado e guardado para nunca sujar ou cair em mãos de crianças apaixonadas. De vez em quando, a crise amorosa era tão profunda que ele vinha ocupar um espaço na cama da dona para suprir o vazio que se instalava.

Depois, como o amor restituído, lá ia o pobre para o armário para nunca se gastar ou sujar.

Hoje o reencontro teve o sabor da alegria; e da certeza de que ele e os seus amigos de pelúcia precisavam sim era de um bom banho.

Jogados no tanque, primeiro o ursinho do “Amo você”. Ela o lavou como a um bebê querido e frágil. Assim que o mergulhava na água, num simulacro de afogamento, os olhinhos de chinês sábio pareciam sorrir. E lá foram todos eles para o varal junto com o sábio.

A sobrinha hoje é adulta, casada e já tem filhos. Seu vazio, se é que houve, foi suprido com muito mais que ursinhos de pelúcia.

A antiga dona preencheu o seu com boas lembranças, com sabedoria e com valores que mesclam tudo isto.

E toca a esperar o sol secá-los. Mas não pretende “socá-los” no velho armário. Eles vão ocupar um lugar sim de destaque no seu quarto. Por quê? Porque hoje eles são lembranças de uma vida.

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