Xodó da família

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Meus pais tiveram quatro filhos, os três primeiros seguidinhos e o caçula, depois de intervalo  de dez anos, que virou o xodó da família. Quando se casou, ganhamos um primeiro sobrinho, que já nos chegou com cinco anos. Sete  anos se passaram e ei-lo nos presenteando, carentes de crianças que estávamos, com uma menina loirinha, de olhos verdes,  chamegada pela família inteira, por quem morava do lado de cá do Atlântico, por quem morava do lado de lá do  oceano, por quem morava encostado, por quem morava fora do perímetro urbano. Ganhou o nome da avó materna e de uma das tias por lado do pai. Título de várias músicas, Maria Helena foi embalada pela avó paterna por composições musicais em ritmo de samba-canção, valsa, bolero, toada, em português e espanhol... Mania antiga, guardo lembranças entre as páginas dos livros que estou a ler naquele momento. Ficam anos escondidos, é doce surpresa achá-los muito depois. Com eles, voltam recordações formatadas por cheiros, sons, lugares, vozes, barulhos. Recentemente abri o livro O Buraco da Agulha, de Ken Follett, lido e relido várias vezes e só superado pelo filme homônimo, um dos raros casos em que a produção para cinema é melhor que a obra literária. Achei  este bilhete já com manchas do tempo, escrito em 2001, quando Maria Helena já era mocinha de nove anos, não tinha tanto contato com aparelhos eletrônicos, como suas coetâneas de 2018. A vovó de quem ela segura a mão no desenho, é a vovó Clara, facilmente identificada por causa dos cabelos curtos, cacheados e escuros.  Maria Helena não era menininha, mas uma garota loira de cabelos compridos, já com  nove anos e quase da mesma altura que a avó, nem precisarias das flechas, indicando-as. Mais duas semanas, e o desenho completa aniversário de dezessete anos. A vovó Clara já partiu. Maria Helena, já mulher,  vive do lado de lá do Oceano Atlântico. Anos se foram, mas juro que ao descobrir o bilhete, desdobrá-lo, eu o fiz lentamente, para melhor saborear e sentir o cheiro de bolinho de chuva, e até me pareceu ouvir a melodiosa voz de mamãe cantando “Maria Helena és tu, a minha inspiração...” Bons tempos!

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