Molécula da alma

Por: Ligia Freitas

389790

Meu coração é volátil, elástico e mutável, então por que será que vejo tédio em cada crepúsculo da manhã?

O mesmo rosto no espelho do banheiro, o mesmo beijo intocável por inteiro, um riso sem graça para a fotografia, um sentimento ordinário no dia a dia.

Sou feliz ou pareço feliz?

Vivo um casamento ou um aprisionamento da alma?

Sufoco-te, porque não te troco, sou liberdade fingida, ainda que eu queira dizer que sou livre.

Incoerência das absurdas acreditar na alegria do pássaro dentro da gaiola.

Preciso achar culpados para as minhas paranoias, senão o medo embola, borbulha e não vai embora.

Que vergonha de mim, se o precipício é logo ali, percebo que meus pés estão por um triz.

Sei que não sou santa, Dom Quixote ou Sancho Pança, minha vida é caminhar tranquila, pelas avenidas suntuosas da mente.

Talvez seja mais fácil não ser gente. Comer capim noite e dia, deitar no estrume e aguardar quem sabe a ousadia.

Ali logo em frente nasceu um rebento, cabelo pretinho. Tinha que ver a cara do pai, de desconfiado. A mãe chorava e acariciava a cria. O pai se fez valente ao ver a pinta de nascença nas costas da filha.

Eis o mistério profundo e aqui até faço meia culpa. É que uma mulher precisa ser um pouco louca, para dar conta de tudo, às vezes também se faz de loba para sair do absurdo.

Somos água que nasce torta, chuva, cachoeira, mar, rio, gota que pula, corre, respinga, sacode, se quebra, requebra, se joga, é cristalina, é um fluxo contínuo.

Água, água, água, água, água.

Forma, formato, formado, lago, lagoa, represa.

Pedra de gelo, derreta-se, enquanto é tempo.

Splash, chuá, pim, ping, plim, plic!

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras