O derradeiro apito

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Não mais ressoarão aos nossos ouvidos aqueles solitários apitos, breves, longos, suaves, estridentes, incessantes, intercalados, débeis, intensos, tênues, profundos, rápidos, prolongados, todos eles como pássaros noturnos, rasgando a noite, descobrindo as madrugadas. Não serão eles a companhia dos insones, quando o sono reparador insistir em os abandonar. Em noites frias, cálidas, amenas, agitadas, chuvosas, estreladas, nebulosas ou enluaradas, ele se fazia presente, representando o bem.

Que mistérios continham aqueles sons anunciados por um homem só que sempre viveu sem esposa, sem filhos, sem irmãos? Como foi a sua vida sem o amor e o calor humano dos mais próximos? Que frios foram seus invernos sem pessoas e lembranças ardentes para lhe aquecer o coração?

Quantos anos andou ele pelas ruas, avenidas, vielas, praças, condomínios inspirando segurança para as chegadas e partidas, sobressaltadas, de moradores apressados, fugindo de um inimigo invisível que poderia estar espreitando, tirando a sua paz?

Muitos foram os anos de trabalho, desde jovem, em sua cidade natal, quando fora nomeado Comissário de Menores. Nos dias de hoje, uma frágil figura como a dele, apenas, afasta gatunos e desocupados que ainda têm na memória o espelho do que foi, um dia, a imponência de um guarda-noturno.

Trabalhou até os 87 anos, quando suas forças lhe faltaram e não mais permitiram que exercesse esta função da qual tanto se orgulhava, cadastrado que fora nos Órgãos de Segurança. José Soares foi-se desta vida, tendo apenas sua farda impecável a lhe cobrir o corpo franzino, para enfrentar sua nova jornada.

Vá em paz, ó guarda! Com certeza, Deus ouviu suas preces e seus apitos e, na solidão das noites infinitas da eternidade, Lhe acobertará!

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