Natal de antigamente

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Naquele tempo meninas ganhavam bonecas, panelinhas; meninos ganhavam caminhõezinhos, bolas de futebol; ambos ganhavam bicicletas, invariavelmente trazidos por Papai Noel. Não me lembro exatamente o ano, mas minha irmã e eu cobiçávamos o mesmo presente: a boneca de porcelana, recém-lançada no mercado e em Franca, vista apenas na Casa Bettarello onde tudo era, além de um sonho, “bom, barato e belo.” A loja ficava na Rua do Comércio, perto da Joalheria Caio Silva, dois locais obrigatórios de se passar para ver as vitrines, nos domingos, depois de ver a banda tocar, tomar sorvete e comer pipoca na Praça. Descíamos pela Voluntários, conferíamos as novidades da Casa Higino, da  Cristaleira, da loja do sêo Dante, virávamos à esquerda na esquina e ali encontrávamos o paraíso da Casa Bettarello. A partir de janeiro, logo após o Natal ser comemorado, já começávamos a escolher os brinquedos do ano seguinte. Numa dessas excursões, eu e minha irmã vimos ao mesmo tempo a  boneca de porcelana, cujos olhos fechavam ao ser colocada na posição horizontal, como a dormir, e se abriam, quando posta em pé. Olhos azuis. A Oitava Maravilha do Mundo! Naquela noite, ao voltarmos para casa, depois de conhecê-la, escovamos os dentes, mas não dormimos direito. E ela passou a povoar nossos sonhos. Um ano inteiro de desejo. Um ano inteiro antecipando a alegria de tê-la conosco, já que consultamos o Papai Noel e ele confirmou que sim, as vacas estavam mais gordas aquele ano e poderíamos ganhá-las. Passei de ano, fiz bonito, bloqueei meus ímpetos: não respondi malcriadamente, não briguei com meu irmão, virei santinha. Tudo pela boneca de porcelana! Chegou o Natal, estava excitadíssima! Mas do mesmo jeito que cresceu positivamente minha expectativa, minha decepção definhou e me entristeceu. Sob a árvore de Natal, na madrugada do dia 25 de dezembro daquele ano, só havia uma caixa grande e ela estava ao lado dos sapatinhos da minha irmã.  Ao lado dos meus tinha uma caixinha da Joalheira do Caio Silva, com par de brincos de pérolas, do mesmo valor da boneca, brilhante como as jóias do mar podem ser, para substituir a boneca de porcelana, que meus pais julgaram presente muito infantil para mim, embora a diferença de idade entre nós, irmãs, fosse  muito pequena. Fiquei absolutamente frustrada, mas para não entristecer meus pais que  ficariam desapontados, tirei da orelha os brincos de rubi da minha infância e os substituí pelos de pérolas. Nunca peguei a boneca de porcelana no colo.

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