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Por: Vanessa Maranha

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Em 1992 eu lia com muito interesse o Caderno de Domingo, suplemento de literatura e arte editado por Sônia Machiavelli, que hoje volta a circular em edição impressa, sob a chancela Nossas Letras. O caderno, em seus primórdios, publicava grandes textos assinados por Sônia, Luiz Cruz, Mauro Ferreira, Atalie Rodrigues Alves, Sérgio Roxo da Fonseca, Alfredo Palermo, Everton de Paula entre vários outros nomes. Era uma suma do que se pensava em Franca, em termos culturais e sim, o que se pensava por aqui era muito interessante. Eu, então uma menina de 20 anos cursando Psicologia, rabiscando literatura que datilografava e não mostrava para ninguém, sequer cogitava a ideia de publicação, um dia li uma crônica de Sônia intitulada Freud explica, mas não resolve. Muito bem escrito e argumentativo, o texto questionava de forma inteligente o dogma psicanalítico, uma provocação que eu, já então uma ingênua iniciada nos preceitos freudianos, com a arrogância própria da juventude, quis responder.

Escrevi um texto gigantesco contra argumentando ponto a ponto a crítica da colunista e o encaminhei à redação, certa de que jamais seria publicado, imagine, rebater daquela forma assertiva a dona do jornal. Eis que no domingo seguinte vejo o texto Cobras e lagartos encimado por uma bonita ilustração a nanquim publicado na íntegra no Caderno de Domingo, acompanhado de um recado que Corrêa Neves enviara pelo meu pai – naquele tempo, publicitário que frequentava com assiduidade o Comércio, primeiro instalado na rua Marechal Deodoro e depois na Rua Ouvidor Freire -: “queremos que a sua filha escreva mais para esse jornal. Gostamos muito do texto dela.” O restante da história é público: passei a colaborar todos os domingos com esta folha, realizando diversas formas de experimentação e estreitando o foco na escrita literária, tanto ficcional quanto ensaística e crítica, até ser convidada, em 1999, a assumir a coluna Insight, então assinada por Soraia Veloso; tempo em que acumulei funções no caderno local, chegando à Editoria do Artes, que eu amava fazer, propondo entrevistas, traduções, crítica etc.

O jornalismo trazia uma adrenalina boa. As conversas com Corrêa Neves, que me contava fatos polêmicos da sua trajetória, como a visita de Dilermando de Assis à redação, a sua relação com cardeais da Igreja Católica, sua admiração a Golda Meir, entre várias outras histórias incríveis. Com Sônia Machiavelli, a total permissão para eu exercitar o experimentalismo mais disparatado na página de literatura, eu tinha carta livre, nenhuma censura e nossas trocas eram frutíferas; com Joelma Ospedal, que dirigia a redação, vivi uma relação de rebeldia e insubordinação que se transformou numa amizade fraterna. O espaço é exíguo para falar dos quatros anos em que estive na redação e os seis anos que atuei posteriormente como freelancer, ligada afetiva e profissionalmente à casa.

Penso que o centenário jornal Comércio da Franca, para além de uma empresa é um patrimônio histórico francano e por tudo o que significa na minha trajetória pessoal e profissional, eu não poderia deixar de me fazer presente nesse momento em que a mudança se faz fundamental, para que continue contemporâneo, como sempre foi. Desejo vida longa a esse jornal, sem o qual eu provavelmente não teria tido a coragem e a força, nem tampouco o espaço necessário para me construir como escritora. Sou muito grata a esta gazeta e na medida em que o tempo passa, eu que sempre tive olhos voltados para fora, em busca do vasto mundo, valorizo o olhar ao que imediatamente nos rodeia, há um mundo aqui, à nossa volta, a ser bem escrito.
 

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