Continuidade

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Começo do século XX. Clara Junqueira, casada com Sebastião Junqueira, ambos filhos naturais de escravas das fazendas de café com seus donos e patrões, já alforriados todos e devidamente recompensados com fazenda perto de Santa Rita do Passa Quatro, receberam a notícia de que Rita Francisca Maia Araújo Junqueira e Joaquim Junqueira tinham lhe dado uma neta, que receberia o mesmo nome da avó. Entusiasmada e feliz, Clara, a avó, foi até Uberlândia, onde residia o jovem casal, levar um mimo para a neta xará. Eram brincos de rubi, que imediatamente foram postos nas orelhas da recém-nascida. Com eles, Clara a neta, ficou até o dia de seu casamento, quando tirou e colocou outro, mais compatível com sua idade – 18 anos, e estado civil. Clara os guardou, até que lhe nasceu sua filha Lúcia Helena, nos anos 40, em quem Ritinha imediatamente colocou os brincos de rubi. Ficou com ele até os dez anos, quando os trocou por outros, de pérola, seu presente de Natal. Os brincos foram novamente guardados e só tirados do pequeno cofre quando Luciana, a filha de Lúcia Helena, nasceu em 1972. Mais quatro anos e foram trocados , que Luciana ganhara um par de brincos de brilhantes, presente da avó paterna. Os de rubi voltaram para o cofre. Só foram retirados para serem colocados na Maria Helena, sobrinha de Lúcia Helena, filha do irmão caçula, nascida nos anos 70. Maria Helena adorava os brincos. Sabia que somente os deveria tirar, pra passá-los para alguma outra menina da família, que poderia ser, por exemplo, uma eventual filha de Luciana. Ou alguma menininha que nascesse na família de Lúcia Helena. Quando Luísa nasceu, já no começo do século XXI, a mãe teve pena de furar as orelhas da princesinha. Maria Helena continuou com eles. Mas um dia nasceu Clara Mulinari Brigagão, em plenos anos 2000, a neta de Lúcia Helena, cuja mãe adorou a ideia de ver a filha dar continuidade à tradição familiar. Clara, a bisneta de Clara Junqueira e neta de Clara de Araújo Junqueira Maníglia, ficou com os brincos até recentemente, e o tempo todo morria de medo de Luciana, sua tia, ter filha, para quem naturalmente os brincos iriam, numa eventual sucessão de posse. Clara, a tataraneta de Clara Junqueira, bisneta de Clara Junqueira, tirou recentemente os brincos, guardou-os e prometeu tomar conta deles. É dela, agora, a tarefa de escolher a próxima dona da pequena jóia. Se será de sua própria filha, de alguma prima, ninguém sabe, mas ela garante que vai contar a saga dos brincos para a futura herdeira, vai tomar conta deles. Isso se chama tradição. Mudam os donos, mudam- se a forma e critérios de transferência, mas o objeto continua a provocar emoção e orgulho em quem o possui. É como nosso Comércio. Sofrerá transformação na sua forma de apresentação, mas continuará sua tarefa e missão de carregar tradição, levar e trazer notícias, informar e esclarecer

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