Infância

Por: Vanessa Maranha

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Ana tinha quatro anos. Sombras e luzes moventes. A mãe sempre lhe sumira e depois aparecera. Em sumi-la assim, a mãe, havia treva. Em retornar, era sol quente anunciado de verões ligeiros.

Deus deve morar numa xícara de chá, sua cor de hibisco. Oh! Deus!, exclamava quase sempre prazerosa e esgazeada Clara ao inclinar uma xícara de chá sobre os lábios. Deus só podia ser aquele chá. Ana gostava então das xícaras, receptáculos de Deus que desenhavam breves sorrisos na cara de passarinho da mãe. Talvez mesmo um dia ela saísse voando sem levá-la, porque parecia carregar em si mesma peso insustentável.

A menina olha a janela quadriculada de vidros e os vidros olham para ela. A menina pensa que árvore-rua-casas-pessoas filtradas pela transparência sejam desenhos, pinturas em movimento. Que nada é real. Considera melhor moer cada placa de vidro e amarfanhar essa janela na mão feito uma bola de papel que se atira no lixo. Prefere seu espelho de molduras brancas à janela mentirosa.

A menina não sabe que enlouquece um pouco. Olha a mãe quieta, sentada na poltrona de veludo verde. A poltrona engolirá a mãe, como faz todas as tardes, transformando-a em silêncio e, no início da noite, a trará de volta com um semi sorriso nos lábios. Ana nunca gostou muito desse meio sorriso da mãe, a ela parecia indigno.

Então busca lápis de cor e se desenha com uma boca possante, maior que a casa, mais larga que a rua. Há estrelas no céu azul marinho que abre a noite em frenesi de grafite e tintas escuras. A menina engole a mãe, mastiga a poltrona, a janela, as estrelas e a noite. Amanhecerá esquecida de tudo. A janela ali.


  

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