Uma cabeça de enxada

Por: Angela Gasparetto

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Parei o carro na estrada vermelha, ao lado do terreirão de café. Era uma volta no tempo. Os campos estavam com o mato alto e o silêncio ensurdecedor ecoava alucinadamente em mim. Logo na entrada, divisei o curral antigo e ao lado os escombros da casa vizinha à nossa, morada do nosso amigo de infância. Olhei as árvores, as pedras. Imutáveis como as nossas lembranças, mas o silêncio que repercutia em mim era sufocante.

Divisei nossa casa antiga, que segundo a minha irmã, havia mudado muito. Para mim era a mesma, ou seja, a que continha a mescla de sentimentos de uma vida. Embora vilipendiada, a casa continuava a manter exposta a sua base construída em pedras, tal como garras ferozes, as quais cravavam em mim todas as lembranças que guardei anos a fio. Subi a antiga escadinha de pedras e caminhei por suas salas vazias repentinamente estreitas. Olhei para o teto escuro, para os cantos mais quietos e tentei captar a sensação da vivência lúdica que ali vivi.

Parada no seu quintal, também busquei as árvores de memória, mas principalmente, um reencontro mesmo que fugidio com a minha mãe que já se foi deste mundo ostensivamente real. “Não é mais o mesmo!” repetia minha irmã. Mas na minha memória tudo continuava igual. Bastava apertar um botão, e toda aquela cena voltaria a funcionar como em um filme interrompido.

Extática ali, com um nó na garganta, eu sentia o vento conhecido, ouvia a água que corria e reencontrava meu eu mais antigo, me reconciliando com aquela que sempre desejou fugir. Em frente à casa da minha bisavó, depois de pular o “mata-burro”, entrei no quintal agora todo coberto por ervas daninhas, coisa que minha bisa jamais permitiria. Busquei a bica antiga, o seu corredor repleto de margaridas, os “beijos” na cerca, as vistosas dálias e todas as flores da sua feminilidade organizada. Também não estavam ali.

Mas de repente, olhando em volta e quase que com um grito, junto à porta da sua antiga casa, vislumbrei ainda enterrada, a cabeça de uma enxada com sua lâmina cega, a qual minha bisa fazia questão de manter próxima à entrada, de modo que todos limpassem os pés antes de adentrar a sua casinha mágica, toda pintada à cal; casa esta que era motivo dos sonhos mais mágicos na minha mente fantasiosa.

Então, do nada, emergi daquele sentimento sufocante e sentada na escada comecei a rir um riso mesclado à alegria e gratidão, porque nem tudo havia desaparecido naquele rincão escondido em Minas Gerais; ainda havia o símbolo de amor e organização da minha bisa, bem ali, enterrado no chão e que era mais do que o exemplo da sua noção exacerbada de higiene, mas muito dos seus valores e princípios mais singelos, feitos desta eternidade de caráter ordeiro e justo, leal e comprometido, os quais perduram para sempre gravados em mim.

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