Natal de crepom

Por: Sônia Machiavelli

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O sol começava a se pôr, neste horário de verão em que a noite demora a cair, quando cheguei para a festa de Natal na “Academia de Artes”, espaço físico e emocional que acolhe crianças, adolescentes e adultos interessados em mais luz ao seu entendimento.

Ali, seja qual for a matéria do currículo, a arte estará de algum modo incluída. Ela se faz presente nas aulas de língua portuguesa, inglês, espanhol. Permeia as de ciências exatas e as de esportes. Está explícita nas de artesanato, dança, música, origami, costura... Porque acreditamos que a estética, enquanto condição de perceber e valorizar harmonias, mobiliza as almas, liberta sentimentos, desenvolve sensibilidades, possibilita ao ser compreender-se com mais clareza na rede de pluralidades que é o mundo. O nome de nossa ONG não é apenas fantasia.

Estava curiosa para ver como minha irmã Sandra, coordenadora pedagógica; Ilda, funcionária de apoio essencial; e nossas empenhadas parceiras tinham preparado o auditório, que tem precariedades do piso ao teto. Com surpresa vi que estava renovado, embora os enfeites fossem os mesmos de anos anteriores, apenas reciclados pelas habilidades da admirável Maria Mendes Ferreira, que ao rearranjá-los alcançava o milagre de lhes incutir aspecto novo. E entre fitas, guirlandas, faixas, sinos, bolas, árvores e a figura de Noel, tão cara às crianças, algo fixado às paredes atraiu minha atenção de forma especial.

Míope que sou, só percebi ao chegar bem perto que eram rosas de papel. Senti meu coração disparar e, um tantinho à la Proust, resgatei a figura de minha mãe ainda jovem, cortando em largas tiras maços de crepom de aspereza ruim ao tato, por causa do enrugado da textura, mas agradáveis aos olhos, nas suas cores de arco-íris. Com elas, criava ramalhetes para saudar o Natal. Na nossa casa de pobre não existiam árvore, bolas, presépios, nada do que me encantava na vizinhança. Em compensação, em nenhuma outra casa havia flores como as que minha mãe fazia para colocar um pouco de cor nas nossas vidas ainda mais cinzentas naqueles dezembros.

Ao ver as rosas de Maria desenfeiando velhas paredes carentes de pintura, em alguns cantos emboloradas, em outros com bizarras fraturas, deduzi que nossa amiga pertence à mesma família espiritual dos que estão sempre criando, não se entregam, por isso se tornam imprescindíveis, como disse o poeta. E assim são todos os voluntários e parceiros que, há dez anos, incansáveis, conseguem fazer do desgastado, do roto, do mutilado, do incolor, algo restaurado pelo amor, respeito, compaixão, esperança. E pela delicadeza expressa, entre tantas manifestações, por flores de crepom, arte popular reinventada. Um exemplo, aliás, para toda vida que não se queira fossilizada por hábitos, tédio, desânimo, descrença, ou, o que é pior, pela renúncia ao sonho.

A essa altura acho oportuno lembrar que Cristo, o protagonista do 25 de dezembro, disse que tinha vindo à Terra para dar a todos os humanos “vida; e vida em abundância.” Se cristãos, entendamos a mensagem que é profunda.
 

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