Feliz Natal! Feliz?...

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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O Natal da Criança Pobre depende, em parte, da boa vontade alheia e sobretudo da ousadia dos pais em comprar objetos que deverão pagar em muitas parcelas, o que poderá comprometer o orçamento familiar por muito tempo. Mas que mãe ou pai resistem ao olhar cobiçoso da menina ou do menino que já entendem o que significa querer e ainda não compreenderam qual a acepção exata de poder. O Natal da Menina Pobre é, em parte, decepcionante, pois que sonhava a boneca e ganhou sapatos e, devido a isso, teve a primeira dura lição de compreensão dos sentidos, abrangência e diferenças entre as palavras necessário e supérfluo. No correr de sua vida enfrentará muitas vezes a dualidade. O Natal do Menino Pobre é triste, porque ganha sempre a versão mal acabada e mais barata dos brinquedos da moda, isso quando a bola de futebol, tão sonhada, não é substituída pelo novo par de calças jeans, que servirão como uniforme, tanto de passear, quanto ir às aulas. O Natal da Adolescente Pobre é palco de frustrações e desalento: sonhava o vestido na cor verde, veio o vermelho; sonhava o relógio de metal, ganhou o de silicone; se derreteu pelo tênis de marca, veio o sem identificação. Era o que os pais puderam comprar. O Natal do Adolescente Pobre é o dia que, com as bênçãos do pai ele toma seu primeiro porre na vida. “Meu filho é macho!”. No dia seguinte, além de ressaca, ele fica ainda mais infeliz porque o boné que ele sonhara importado, mesmo embrulhado com carinho e encontrado sob a árvore simplesmente decorada, se revelou pirataria pura através da etiqueta “Made in Franca”. Os óculos, não obstante a etiqueta chamativa, é nacionalíssimo. E o telefone novo, que frustração!, não é da Apple... O Natal da Criança Rica; o da Menina Rica e o do Menino Rico; bem como o da Adolescente Rica e o do Adolescente Rico são igualmente frustrantes. Ganham tudo e de todos, tudo que sonharam ou pediram. Os pais (e avós) não medem gastos, cumprem listas de desejos, como se nunca mais fosse haver Natal, como se fosse a última comemoração de suas vidas, como a compensar alguma frustração antiga. Sempre fica faltando alguma coisa e quase sempre alguém se decepciona... Vamos experimentar no próximo ano, que para este não há mais tempo, preparar o Natal como se fosse realmente o aniversário de alguém muito especial. Focar no verdadeiro aniversariante. Ao invés de receber, dar o presente. Ao invés da ceia farta e quase intocada, levar alguma comida para os mais necessitados. E, coitadinho dele, dar ao Papai Noel bermudas estampadas de abacaxi, camiseta cheia de coqueiros, um par de chinelas havaianas. Vamos ajudá-lo a se livrar daquelas roupas de Islândia, impróprias para os trópicos. Feliz Natal pra todo mundo!

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