Haja Coragem!

Por: Sônia Machiavelli

392007

Uma face de Jano olha para trás, como a se despedir dos fatos que povoaram o ano moribundo. Outra face olha para frente, no aguardo do que está por vir. Janeiro, mês do deus romano, é portal simbólico de um tempo novo em nosso calendário ocidental. Costuma ser saudado com esperança. E com os rituais criados para momentos de transição, desde que o homo sapiens começou a conferir sentido aos acontecimentos que o rodeavam.

Nosso país multifacetado, miscigenado, de dimensões continentais, deve ser um dos lugares do planeta onde as simpatias de Ano Novo mais ganham em variedade e número de adeptos. Elas acabam unindo gentes de todas as raças e classes sociais, pelo menos enquanto dura o Réveillon. E, mais ou menos como acontece numa partida de Copa do Mundo, capaz de acender nos torcedores a euforia que é sempre brilhante e fugaz, abraçamos na passagem do ano (como depois do gol de nosso time) quem estiver ao nosso lado. Mesmo que não o conheçamos, vamos lhe desejar felicidades.

Para que se cumpram nossos melhores anseios, algumas coisas não podem faltar. Usaremos roupas brancas, ignorando talvez que essa é uma herança africana, da mesma forma que pular sete ondas na praia. Do cacho de uvas retiraremos um a um doze bagos, engolidos ao som das badaladas do relógio de antigamente ou da mudança de algarismos no digital, repetindo gesto dos primeiros portugueses aqui chegados. Extrairemos da romã, fruta de muitos significados para os imigrantes árabes, sete grãos túrgidos e vermelhos, que mastigaremos e cujas sementes guardaremos na carteira. O prato de lentilhas, cereal milenar e de presença bíblica, que os italianos nos ensinaram a preparar desde o começo do século XIX, será o primeiro a se degustar nesta ceia de boas intenções e altas expectativas. Soltaremos fogos, repetindo cerimônia que antecede a invenção da pólvora: a fim de afugentar espíritos malignos, povos primitivos também faziam muito barulho.

Um mar de energias positivas parece inundar todo mundo nessas horas de virada. E dá-lhe expressão de vontades. Viajar, ser feliz, arranjar emprego, passar no vestibular, ganhar mais, encontrar um par, comprar um carro, acertar na loteria, ter sorte no amor - tudo junto ou separado se ajeita no pacote dos desejos. E nos votos que encorpam as mensagens de Boas Festas aparecem os que são de fato essenciais- saúde, amor e sonho; os bem vindos- progresso, alegria, criatividade; os estimulantes- conquistas, sucesso, vitórias.

Raramente se verbaliza o que para mim continua sendo imprescindível e deveria encabeçar toda lista realista de Ano Novo: coragem. Porque a vida que flui, e muda continuamente, não se desenha conforme ilusoriamente a planejamos : sobre bem poucas coisas exercemos de fato total controle. Então, para encarar as frustrações sem muita raiva, e como oportunidades de reinvenção, é preciso que tenhamos armazenada uma tonelada de coragem. Do latim “coractium”, a etimologia explica o sentimento como “coração em ação”. É nossa mais potente arma para combater e derrotar o inesperado que a qualquer instante pode nos desalojar da zona de conforto.

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