Mulheres que leem

Por: Sônia Machiavelli

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Há pessoas cuja capacidade de ler os outros as habilita a escolhas tão acertadas quanto felizes. Com suas opções elas reafirmam a certeza de que presentear é uma arte. Sou uma mulher sortuda. Tenho amigas assim, que intuindo meus constantes questionamentos sobre o tempo, me alegram com calendários. Eles ficam expostos durante o ano pelos lugares onde mais permaneço e depois são guardados a cada final de dezembro como relíquias.

Neste Natal ganhei vários, todos lindos, mas um me tocou de jeito especial. É que junto à intenção explícita ao gênero que é marcar dias, semanas e meses, trouxe junto tema importante. Em tradução livre “o olhar feminino na leitura,” a publicação em língua inglesa tem por título “The Reading Woman”. Achei espetacular, no sentido mais profundo desta palavra. Porque tem me hipnotizado com suas reproduções de quadros de grandes mestres, expostos em museu da Pensilvânia, no Metropolitan de Nova York, em instituições particulares. Os franceses Degas e Collet; o italiano Mancini; o belga Khnopff; o japonês Arai Koru; os norte-americanos Garber, Breckenridge, Polk, Shannon, Borie, Alexander e Cassat dispensam apresentações.

Há imagens de avó, mãe e neta reunidas. Moça solitária em seu quarto. Dama dos Setecentos com a filha. Outra dos Oitocentos em pose clássica. Gueixa entre gueixas. Senhora sentada no fundo de sala de espera. Outra em ambiente doméstico mostrando gravuras à menininha em seu colo. Adolescente em pose intimista ao amanhecer. Mulher chique do começo do século XX. Velha professora de balé com suas alunas. Uma chinesa entre papoulas. Duas mocinhas atentas à mãe voltada para elas e de costas para o espectador. Unindo todas, o livro. Com duas exceções: a mocinha de agosto tem olhos fixos numa carta; a velha bailarina de outubro manuseia um jornal. Há as que leem para si; as que leem para outras; as que parecem refletir sobre a página que acabaram de ler. Em cada uma, a expressão corporal deixa adivinhar grande interesse pelas palavras que o olhar captura. Observando-as, penso se uma mulher lê de forma igual a um homem. Acho que não. Mas de uma coisa tenho certeza: mais que o pai, a mãe é capaz de motivar seus filhos à leitura.

Não bastassem serem tão inspiradoras, as reproduções das telas são acompanhadas por frases que traduzem o valor da leitura e destacam seu papel na infância. Destaco duas. “Não há substituto para livros na vida de uma criança”- Mary Ellen Chase. Há muitas maneiras de ampliar o mundo de seu filho. O amor por livros é a melhor de todas.”- Jacqueline Kennedy.

O objetivo da empresa responsável pela publicação deste calendário estético é “revigorar, iluminar e inspirar através da arte”; no caso, a pictórica e a literária, de mãos dadas num feliz encontro que vai deleitar o olhar e amaciar o coração humano durante os doze meses deste 2019. O nome da editora é Pomegranate. Em português, Romã. Não poderia ser mais expressivo na tradução de beleza, imaginário, fertilidade. E de respeito à arte, à infância e ao feminino. 

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