Eva

Por: Vanessa Maranha

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Eva no vigésimo andar de um prédio de vidro sentia-se num aquário ou numa torre de marfim, intransponível. Todos os dias no mesmo horário, as sirenes de Auschwitz nos seus ouvidos. Noventa anos, os números tatuados no pulso, esverdeados, se desfaziam, a flacidez da pele solta da carne, craquelada de velhice, a ceratose. O cinza cada vez mais desmaiado nos olhos de Eva olhavam a televisão e viam. A militarização dos costumes, o ódio, pessoas espumando palavras de guerra, perseguições, Eva via. Eva se lembrava, sem palavras. Eva muda.

O lunático afinal não morrera, seu vírus forte e vivo, Mefistófeles. Não se movia, ela. Olhava a Torá sem forças para alcançá-la, o vírus propagado no ar. De novo. Era 1942, tinha 14 anos, a grossa fumaça preta vazava da chaminé. Sua mãe saindo daquele cilindro alto de tijolos, sabia. A ala dos tuberculosos, evitação de contágios, dizia-se à boca miúda. Havia um mercado negro de informações ali, a tal boca miúda, inclusive nesse dia em que a lágrima lhe queimara o rosto ressecado como em nenhum outro momento da sua vida. Soube que para sobreviver ao crematório, serviria o oficial, isso foi tácito. Do jeito que pôde, com asco que engoliu, no silêncio que aprendeu, seu corpo já esquelético, quase morto, aos pouco encarnando-se, ganhado cor, voltando à vida, o coração, não. A cada encontro com o velho maldito que cheirava a cebola, era como se um corvo lhe bicasse um pedaço do coração. Ela o sentia pendurado por um fio, assim o sentiria depois por toda a vida. O coração era resto de coisa em si, sempre em iminência de arrebentar. Finalmente se levantou e devagar, apoiada a uma bengala, foi ao lavabo, pôs o punho sob a água da torneira, despejou sabonete líquido para lavar aquele fragmento de número em si, esfregando vigorosamente o pulso, a lágrima cristalizada no olho, aquele número pegado em si, condenação que só a morte levaria. O corpo é um claustro. Era prisioneira dele, de sua história, de seus enganos, na mente vindo vivos os cheiros, os gritos, os estampidos, a indigência daquele inferno.

Salva pela Resistência, o oficial que a seu modo imundo lhe poupara a meia vida naquele campo, fuzilado depois na sua frente, o sangue brotando do seu peito como rosas mais vermelhas que o habitual – esquecera-se delas.

Toda voz engolida. Eva via tudo agora prestes a se dar de novo, um lunático hipnotizando multidões às cusparadas, autorizando-as à iniquidade – da palavra ao ato. A senilidade do corpo não obliterara a mente, ainda viva para claramente reconhecer os sinais. Olhou pela janela, lá embaixo uma passeata gritando patriotismo, via as cores, era um formigueiro verde e amarelo, torpes, ignaros, pensou, não sabem o que estão pedindo.Sentiu cheiro ardido de cebola. Grossas mãos lhe invadindo a pele branca. O irrepetível cheiro de carne humana se defumando nos fornos crematórios. A mãe para sempre perdida no ar, sem apalpe. Aqueles insanos e gritões lá embaixo não faziam ideia. O exato ponto em que todas as coisas se invertem. O fio que sustinha aquele fragmento arruinado dentro do peito então finalmente cedia.
 

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