Casamento

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Há 16 anos, no Mosteiro de Claraval, MG, em cerimônia com poucos convidados escolhidos pela noiva, muitos familiares e na presença dos pais do noivo que vieram da Inglaterra acompanhados por John e Sarah - irmão e cunhada, casavam-se Luciana e Paul, depois de três anos de relacionamento entre namoro e noivado. Luciana é primogênita da família de quatro irmãos, xodó dos pais, avós, tios. Foi a primeira criança que chegou às famílias depois de muito tempo, chegou arrebatando corações dos avós, dos pais, dos tios. E foi a única menina durante anos, o que lhe deu status de semi-deusa, cujas vontades eram satisfeitas, nem bem expressas. O curioso é que ela jamais se valeu de quaisquer privilégios de sua posição familiar, continuou simples, até tímida, de personalidade firme. Viveu um ano no Canadá onde fez amizades que ainda conserva e um dia, depois de estágio com o pai na indústria de calçados, decidiu ir em busca de sua história, num outro país. Optou pela Inglaterra, talvez influenciada pelos irmãos, que contavam de suas estadias animadíssimas por lá; quiçá pelas histórias românticas que permeiam as de luta e guerra naquele rincão; ou pode ser que seu interesse fosse pelo caráter contraditório da personalidade inglesa. Um dia ela foi, sozinha, morar à beira do Tâmisa. Dois anos de experiência, quando pensei que voltaria, ela telefona contando que havia conhecido um rapaz, bancário como ela, inglês, calado, tímido, bonitão e que estavam namorando. Namoraram quase três anos, marcaram a data do casamento. Tudo que eu propunha, ela discordava. Queria casar em casa, sem muito alarde, só com as pessoas mais íntimas, familiares próximos, seus padrinhos, os médicos responsáveis por seu nascimento e permanência na minha barriga, os funcionários de casa, os outros da fábrica do pai, que ainda eram seus amigos. Vieram três amigas do período de Londres, as do Canadá não puderam vir, por causa da data, 3 de janeiro. Determinou: vovó Clara faria o bolo e parte dos doces, entre os quais exigia a cocada. (Não é doce de casamento, argumentei! Não é dos outros, no meu será!, disse.) Queria as avós e o avô entrando na igreja antes dela. Teve duas daminhas, uma inglesa e outra brasileira. A sobrinha quase bebê não conseguiu acompanhar o pique das púberes... O Pai quis que a entrada da noiva fosse anunciada por toque de clarins. Teve. O Coral de Ribeirão Preto e a Orquestra de Câmara executaram a Marcha Nupcial e a Ave Maria; no final, a meu pedido, Cantiga por Luciana. Seu vestido foi feito por Dalel Ferreira, a partir de desenho do Edson Luiz Fernandes. O pai mandou fazer seu terno em Ribeirão. Liliko Decorações enfeitou o Mosteiro. Renzo Covas o local da festa. E a mãe, de tão feliz, quando viu tudo perfeito, desabou e quebrou o pé. Entrou na Igreja mancando, de sapatilha vermelha, chorando de dor, tentando não tropeçar na barra do lindo vestido de renda vermelho que mandara fazer para o casamento... Luciana e Paul têm dois filhos, Lucas e Thomas e ainda moram na Inglaterra. (Para Luciana e Paul, em 3 de janeiro de 2019.)

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