Involução

Por: Sônia Machiavelli

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Há alguns anos fui a São Paulo só pra ver exposição sobre Darwin (1809-1882) no Catavento Cultural. Antes de se tornar lugar de conhecimento, o prédio foi sede da Assembleia Legislativa e da Prefeitura. Acolheu portanto políticos; hoje recebe gente interessada em ciência. Ainda bem que há arejamento nestes espaços. Tudo junto e misturado costuma dar bode.

Ver a fachada já me despertou sensação estética. Mas as maiores emoções viriam no interior, onde curadores organizaram painéis com fotos, documentos, desenhos, manuscritos do naturalista britânico. Raridade era a reprodução da capa da primeira edição do livro que se tornaria marco divisório da biologia: “Da Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”. Foi só na sexta edição, em 1872, que o título foi abreviado para “A Origem das Espécies”.

Nele Darwin afirmou que a diversidade observada entre os seres vivos se deve a uma seleção natural. Ou seja, as espécies dão origem a outras espécies através de mudanças quase imperceptíveis que, de geração em geração, vão se tornando paulatinamente nítidas. Ele tinha por base as pesquisas iniciadas nos três anos de navegação no Beagle. Por temer a ira dos religiosos criacionistas (ironicamente ele tinha sido excelente aluno de Teologia), levou duas décadas para reunir coragem, publicar seu estudo e receber críticas.

Mas a verdade sai do poço sem perguntar nada a quem está ao redor, como escreveu Machado de Assis. Darwin acreditava que as lacunas existentes na sua teoria seriam preenchidas por cientistas que viriam após e comprovariam suas pesquisas.

De fato, alguns anos depois, seu conterrâneo, o monge agostiniano Mendel (1822-1884), professor de biologia, trabalhando nos canteiros do convento onde morava, empenhou-se em estudar a diferença entre as ervilhas e descobriu as leis que regem a transmissão dos caracteres hereditários. Ele as formulou e apresentou à Sociedade de História Natural. Tais estudos ficaram esquecidos numa biblioteca, até que o holandês De Vries (1848-1935), botânico dedicado à pesquisa, os descobriu e reabilitou seu autor, posteriormente cognominado “Pai da Genética”. De Vries, por sua vez, intensificou seu trabalho para estabelecer as diferenças entre a rosa natural e as rosas cultivadas. Com isso reforçou os fundamentos da pesquisa genética. E vieram muitos outros.

Os habitats mudam ; para se adaptarem, os seres mudam também. Esta é sempre a “luta pela vida”, expressão incluída no primeiro título do livro de Darwin e endossada por milhares de cientistas desde então.

Há poucos dias ouvi o jornalista Guga Chacra dizer que 97% das escolas do Ocidente ensinam aos alunos a Seleção Natural de Darwin, as Leis de Mendel e a contribuição de De Vries para explicar a origem do homem na Terra. Só a Arábia Saudita e outro país esquecido da África vão na contramão. Mas estou achando que logo terão mais um a lhes fazer companhia.  

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