O artista praiano

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Após um banho de mar, saiu andando na areia sulcada pelas ondas, com muita facilidade, e falou em tom de voz alto o suficiente para ser ouvido pelos frequentadores da praia, acomodados em suas barracas.

- Agora pego meu paletó e a gravata e vou para meu escritório!

Esta frase não combinava com o sol forte, nem com o bater das ondas nos arrecifes, nem com o clima de lazer que se estabelecia naquele momento.

Alguns sorriram, outros ignoraram, mas, logo, o vi voltando usando uma bermuda surrada, uma camiseta branca limpa, mas manchada de tinta de várias cores. Aproximou-se com um azulejo branco, oferecendo-se para pintá-lo com algo que simbolizasse aquele instante e nossas pessoas. E começou pela praia, a areia multicolorida, ondas brancas bordeando o mar de vários tons de verde e azul escuro, onde era mais profundo. O sol em amarelo ouro, num céu com nuvens brancas, dois barcos mais distantes, representando os filhos e dois grandiosos coqueiros enfolhados significando o casal. Apesar de muito explicada, a pintura tinha uma certa beleza e harmonia de cores.

Enquanto pintava, senti que com sua arte, mesmo simples, queria nos comover e formar elo entre nós.

Falante, contou-nos um pouco de sua vida:

- Meu pai veio de Portugal para trabalhar com Brennand, [o versátil artista pernambucano, pintor, escultor e ceramista de renome, autor de grandes obras em Recife.] Minha mãe, continuou ele, era índia, da aldeia dos Xucuru, no município de Pesqueira, no agreste. Aprendi a pintar com meu pai, estudei até o segundo grau, mas minha vida é a arte. Meu lado índio e o restante artista me faz o que sou.

Questionado sobre seu estilo de vida incomum respondeu que nasceu e mora perto do mar, vive de suas pinturas em azulejos e da sua criação. Sua arte o renova e lhe dá esperanças. Não tem pretensões de ser reconhecido, muito menos de enriquecer, contenta-se em fazer o que gosta.

Sobre seu escritório na praia, faz uma referência irônica aos executivos que procuram uns dias de felicidade perto do mar. Ele os tem, todos os dias... A vida diferente dele nos faz pensar sobre as palavras do escritor pacifista israelense, Amós Oz.

Tente ver como o mundo é na visão de outra pessoa.

Não faça elas serem iguais a você.

Não vai conseguir mesmo!

 

  

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