Para conversar

Por: Maria Luiza Salomão

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Prognósticos terríveis para o século XXI: a história acabou, a psicanálise acabou, etc. e tal.

O que vejo? As conversas minguaram: todos encolhidos, em celulares vozes, em portáteis conveniências, em repetições mobiles. Tudo se copia e cola. Ideias, imagens, sons.

Quem sabe conversar se torne capaz de expandir criatividade, criar nexos e léxicos – pontes de passado e de futuro. Viaja. Transporta. Recarrega sentidos: pode ser mais, mais sendo.

Como saber conversar? Conversamos até sozinhos: temos vozes interiores. Temos de ser aptos a ouvi-las, discriminá-las, harmonizá-las. Precisamos, por isso, de conexão, ligação, ter alguém do outro lado da linha da pele, da linha do ouvido, da linha da língua. Alguém que me cale e me escute. Alguém que se cale e se escute.

Saber de sinais de trânsito é essencial para conversar. Pare, olhe, escute. Animais na pista. Curva acentuada à direita. Curva acentuada à esquerda. Diminua a velocidade, não demais, senão alguém bate na traseira, na moleira. Sonorizadores, se sonolento e capaz de perder o rumo. Lombadas muitas, com diferentes nomes. Cuidado com as rotatórias – você pode girar e girar no mesmo ponto e voltar para onde veio, quando rumava para o lado oposto.

Não é difícil entender os sinais de trânsito. Caso não atenda a eles, há a experiência dolorosa de trombar feio, ou ser preso, ou morto até porque não saber conversar gera todo tipo de violências.

Penso que as pessoas que mais sabem conversar, que conheço, são os músicos. Conversam sem palavras. Eles se saúdam aos abraços e beijos, e olhares se cumprimentam e se entendem...por música. Seres invejáveis. Veja um programa no canal Curta!, 556 da net, chamado “o piano que conversa”. Nenhuma palavra: o piano diz, o baterista completa, e o violoncelo atravessa, faz o contraponto. O piano conversa com outras culturas musicais e faz trajetos paralelos, coincidentes, em sons e silêncios.

Todos ficam felizes. Quem escuta se sente aprendiz, elevado momentaneamente a um outro mundo.

“Compreensões emocionalizadas”: ninguém nunca esquece o que sente. Isso é aprender a conversar.

 

  

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