Decidir (se)

Por: Sônia Machiavelli

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Quando o homem da pedra lascada abandonou a caverna para buscar alimentos, inaugurou o verbo decidir. A bem da verdade, já o conjugava ao permanecer, embora sem consciência disso. No momento em que a caça escasseou e frutos minguaram, era ficar e morrer ou sair para sobreviver. Desde nossa origem paleolítica somos levados a escolher. Nem sempre entre vida e morte. Mas de alguma maneira, sempre fazendo algum luto.

Que decidir é uma das ações que exigem bastante à mente (e ao coração) é verdade acaciana. Escolher algo ou alguém em detrimento de outras coisas ou seres, não é tarefa simples. Li num artigo científico dirigido a leigos que há um limite diário para esse tipo de comportamento. Quanto mais ofertas, mais o cérebro se estressa antes de fazer uma opção.

Em nosso tempo caracterizado por mudanças de comportamentos e parâmetros, temos de decidir sem cessar, tão logo acordamos. Das pequeninas - o que comer, que roupa vestir, qual livro ler, a que filme assistir, às grandes- eleger uma carreira, ficar ou partir, ter filhos ou não- decisões fazem parte do existir.

Palavra forte, decidir revela história interessante na sua raiz latina, que nos leva a pensar em seu impacto sobre nossa existência. Deriva de decidere, cortar, que lenhadores usavam para descrever a poda de ramos (secos ou verdes) que atrapalhavam a caminhada. Isso supõe uma ação seletiva em que se resolvia arrancar fora o que não tinha mais utilidade.

Com o passar do tempo, o verbo chegou a outros campos de significado, objeto de estudo da moderna semântica. Da ação de podar galhos para o sentido de descartar todas as opções ante apenas uma que interessava, passou-se muito tempo. Mas a ideia de cortar permaneceu na alma de decidir. Em lugar de usarmos pedras, facões e machados, passamos a analisar, discutir e argumentar. Não raro sofremos, e ainda mais se a escolha for binária e antagônica em seus termos. Porque então teremos um dilema e sua angústia.

Acho que foi pensando nisso que Cecília Meirelles escreveu um poema para crianças que se tornou icônico aos adultos, chamado “Ou isto ou aquilo”: “Ou se calça a luva e não se põe o anel,/ou se põe o anel e não se calça a luva”...

Decidir é considerar que para conquistar uma coisa muitas vezes temos de abrir mão de outra. E sofrer pelo que perderemos. Em geral a coragem é impulsionada pela expectativa de que a escolha feita por x compensará o sofrimento pela perda de y. Mas há riscos- quem disse que viver é exato? Sabe-se por Guimarães Rosa que “é uma questão de rasgar-se e remendar-se”.

Por não dar conta de assumir riscos, ou temer a dor da perda, muita gente deixa tudo como está, ainda que o preço a pagar seja uma tenaz insatisfação. Quem vive indeciso pisa todos os dias o mesmo lugar, toca a mesma tecla, permanece atado ao medo da (de) cisão. Sem entender que decidir(se) pode significar libertar (se).
 

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