Cabelos brancos

Por: Jane Mahalem do Amaral

393076

Deixei meus cabelos brancos. Deixei, não. Eles ficaram por conta própria. Apenas não os incomodei mais com produtos químicos que eram regularmente aplicados, quinzenalmente. Eles me agradeceram. Voltaram a ficar fortes, deixaram de cair e as pequenas falhas que haviam surgido no couro cabeludo foram, lentamente, sendo restauradas. Foi uma decisão interna e real. Sabia o que iria ouvir e sabia que sairia do padrão. Mas estava convicta e, quanto mais tempo passava, mais eu me certificava de que era exatamente aquilo que eu queria. As unhas também parei de pintá-las. Pelo mesmo motivo: enfraquecimento. Voltaram a ficar fortes, sem o esmalte.

O que tem isso a ver com minha caminhada até a esse momento de vida que já faço parte do famoso grupo dos idosos?

Perdi minha vaidade? Ou perdi minha identidade? Não. Continuo me maquiando com leveza, gosto de um bom corte de cabelo, realizado por profissional competente, gosto de comprar roupas que me agradam, mas busco hoje, principalmente meu conforto. Não uso mais sapatos de salto, pois prefiro me sentir segura nos meus passos. Não me sinto idosa, nem velha, nem fraca, nem tenho dores que me incomodam, nem me acho feia... Aceito minhas rugas e não pretendo tirá-las... Caminho, todos os dias cinco quilômetros ou, mais ou menos, nove mil passos que marcam meu mais novo relógio que me acompanha em tudo e até conversa comigo. Gosto da tecnologia atual. Faço cursos, on-line, para aprender usar, ao máximo, meu Iphone. Sou fã da Apple. Acho fascinante a oportunidade de ter em mãos uma tecnologia tão fantástica. É um privilégio poder experienciar isso. Penso que nem meu avô, nem meus pais acreditariam no que é possível realizar hoje com um aparelhinho desses nas mãos. Pratico Yoga todos os dias. Trabalho meu corpo e minha respiração. Tomo chá de gengibre, várias vezes ao dia. Leio livros atuais, como Homo Deus, último best-seller que li, do autor israelense Yuval Noah Harari. Gosto de ir ao cinema, teatro, tomar café com minhas amigas, tomar cerveja e vinho, nos finais de semana com o marido e com amigos. Adoro brincar com minhas netas, rir com elas, ler histórias e ensiná-las a praticar Yoga. Gosto de viajar, já fiz peregrinações na India, Jerusalém e França. Gosto de praia, de rancho e de montanhas. Faço retiro de silêncio com meus professores de Yoga. Medito todos os dias e conduzo dois grupos de meditação semanalmente. Trabalho ainda com educação em escola de ensino médio.

O que me dizem, então, algumas pessoas sobre meus cabelos brancos? “Esse cabelo vai te envelhecer. Acho que você deveria pintá-los... Vai ficar mais jovem!”

Será?
Cora Coralina me sustenta com sua sabedoria: “Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo. Também não diga pra você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais. Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha, não. Você acha que eu sou? ”
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras