A cobra Catarina

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Vivi três longos anos na capital paulista e, daquele estágio no purgatório, guardo duas lembranças boas.

Fui ao Estádio do Pacaembu algumas vezes, a fim de realizar sonho de meu filho. Ele adorava ver de perto o ídolo Ademir da Guia, o Divino, jogador do Palmeiras. Satisfazia meu filho e proporcionava à minha filha de seis, sete anos, o aprendizado de diferentes palavrões.

A outra lembrança que persiste, amena, é a dos camelôs. Gastava um tempão, admirando sua arte. No horário de almoço, engolia meu prato-feito (o famoso pf), encaminhava-me para a Rua 25 de Março, ficava ouvindo, de longe, os recursos de que se utilizavam para arregimentar platéias. Considerava-os artistas anônimos, decorava suas falas.

“ É três por cinco e dois por dez. Moça bonita não paga... mas também não leva”.

Hoje, revisando caminhos, sei que o meu encanto pelo trabalho do camelô foi plantado na minha longínqua chegada a Franca.

Quando aqui chegou um menino de pés no chão, com as calças muito curtas e os olhos muito espantados, engolindo novidades, havia a Estação Rodoviária – um quarteirão inteiro, no centro da cidade. Bem no fundo do terreno, muito inclinado, existia um bebedouro onde os animais (bois, burros, cavalos, passarinhos) saciavam a sede. Cá em cima, fazendo divisa com a pracinha do prédio dos Correios e Telégrafo, ficava a construção onde eram vendidas as passagens. O resto do terreno era espaço onde as jardineiras estacionavam, despejavam e engoliam gente de todo jeito e de todo tamanho, os homens carregando sacos e malas, às vezes alguns bichos, as mulheres carregando penca de filhos.

Nas proximidades da rodoviária, quase sempre diante do prédio do correio, imperava o Zé Biloca, camelô que, em 1950, se fincou num coração de menino.

E, para sempre, a semente se tornou carvalho.

O menino não se esqueceu de que Zé Biloca apregoava, e apregoava, e vendia de tudo: remédio para calo, para frieira, para dor de ouvido, para colocar no buraco do dente. Vendia cortador de unha, canivete com duas folhas, com abridor de garrafa. Vendia saca-rolha, abridor de lata. Vendia jogo de xícaras de plástico, coloridas. Vendia mil coisas.

O menino não queria comprar. Estava interessado na cobra que o camelô dizia estar dentro da mala velha, ao seu lado. Assegurava que a cobra era ensinada: fumava e botava ovo.

O número de pessoas raleava, o camelô gritava.

- A Catarina está fumando... Agorinha mesmo ela vem cá fora e vai botar ovo.

A Catarina nunca que acabava de pitar, nunca que aparecia para botar ovo. Então o menino se cansou, ficou de cócoras, mas algum sabidão da cidade foi maldoso. Deu um chute na bunda do moleque e ainda gritou:

- Levanta, menino. Quem bota ovo é a Catarina.

A grosseria ficou. Mas ficou camuflada pela esperança de um dia ver uma cobra Catarina fumando, botando ovo.

Ficou, acima de todos os disfarces, o camelô Zé Biloca e a certeza de que algum remédio miraculoso, um dia, ainda acabará com todos os calos.

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