Anos 40

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Aqueles eram tempos de guerra, escondia-se o óbvio, escancarava-se o absurdo. São Paulo era terra da garoa. Rio de Janeiro – a capital –  Cidade Maravilhosa. Belo Horizonte, a Terra das Alterosas. Porto Alegre estava longe, muito longe e Fortaleza era quase Europa, tão distante!  Sonhava-se construir uma capital brasileira no centro do país, preservando-a de ataques estrangeiros. Lá, onde só tinha onça, capivara, jacaré. Chique para paulistanos, era tomar chá na Barão de Itapetininga. Para cariocas, freqüentar a Confeitaria Colombo e ir à praia com maiô inteiro, com saínha, para esconder o começo do púbis. Só as muito ousadas usavam duas peças, quase uma, já que a separação entre elas era absolutamente sutil.  Luvas, chapéus – para homens e mulheres – perfumes (de Gardenia)  para elas, Glostora no cabelo, para eles. Ia-se muito ao cinema. Sob o vestido acinturado, coxas generosas, largos quadris e seios fartos. Combinações de seda, bordadas, alças largas. Calcinhas que hoje poderiam passar por shorts, sutiãs de cetim de alças e bordas largas, bojo estilo ninho de passarinho. Soberbas criações do diabo, as meias de seda apareceram, substituindo o papel das maçãs, no velho processo da sedução masculina pela mulher.  Dançava-se muito bolero, com direito a arfâncias e fremências: La Barca, Vereda Tropical. O último samba-canção, gravado por Nelson Gonçalves,  inspirava serenatas e falava – ousadia! - em  “camisolas do dia”.  Dançando (dois pra lá, dois pra cá) sentia-se o cheiro do sabonete Palmolive. Não se falava muito - era preciso cuidar do equilíbrio nos volteios mas, ao voltar para a mesa, comentava-se sobre os artigos das revistas Seleções – que ainda eram editadas em Portugal. O samba descia o morro, mas só era aceito mesmo nos palcos dos Cassinos, dançados por vedetes tanajuras, com pouca roupa. Tais estabelecimentos (do “pecado”) viriam a ser fechados naquela época por ordem da carolice da mulher do presidente que substituiu o ditador Vargas. E até hoje não foram reabertos. Criaturas literárias como  Anna Karenina,  Emma Bovary e Capitu eram comentadas a boca pequena, pois responsáveis por nefandos atos.  A virgindade de Doris Day tinha sido recém inventada. O bigode de Clark Gable era imitado já a partir do aparecimento dos primeiros fios nos fãs.  Maria Montez se deixava fotografar nua dentro de uma banheira. Cyd Charisse já era parceira de Fred Astaire, substituindo Betty Grable. Nora Ney, Linda e Dircinha Batista reinavam absolutas. Os produtos Max Factor já eram sucesso e já se passava Pond’s no rosto. Canetas-tinteiro, Sheaffers ou Parker!  A França tinha sido tomada pelos alemães. O romance entre o rei da Inglaterra e Miss Simpson dividia opiniões internacionais.  Nossos pracinhas se encontravam na Itália. Românticos, agressivos, ricos, criativos, conturbados, interessantes, imaginativos, repletos de sonhos. Natural que os anos 40 vissem nascer Roberto Carlos, Caetano, Chico, Gal, Bethânia, Tim Maia, Woody Allen, Spielberg, George Lucas.

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