Mandacaru

Por: Sônia Machiavelli

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Faz alguns dias a professora Hercídia Facuri postou no Facebook uma foto que me surpreendeu e encantou: um pé de mandacaru, mostrando fruto excêntrico em desenho e cor: elíptico, violeta. Parecia uma escultura. Era o primeiro em dez anos, ela explicou. Pensei com meus botões: efeito do nosso verão escaldante.

Por coincidência, uma semana depois, fugindo à minha rotina diária e saindo de casa em horário diverso do habitual, ainda dentro do condomínio onde moro, tive meu olhar atraído subitamente por uma profusão de grandes manchas brancas entre os cactos plantados há muitos anos. No zás-trás elas me pareceram pedaços de papel de seda espetados nos espinhos por crianças, pois na véspera o local tinha servido de espaço para festa infantil. Uma árvore centenária, outras mais jovens, muitos arbustos junto aos cactos fazem daquela área um recanto de frescor para humanos, cães, pássaros e galinhas-d’angola .

Apesar de estar atrasada, não resisti. Fiz o contorno, voltei, desci do carro , fui ver o que era aquilo. Vivi momento epifânico. Não eram pedaços de papel e sim grandes e perfumadas flores. Abertas, exibiam pétalas acetinadas levemente enroladas; e os botões, nas hastes hirtas, semelhavam tulipas gigantes. Eram muitas flores e muitos botões, dispostos de forma aleatória, acenando algo que me soava da ordem das coisas bafejadas pela beleza que transcende, aquela de tempos prístinos.

Repensei o que havia lido em prosadores como Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego; em cordéis pendurados nos varais deste nosso Nordeste arcaico, encolhido pelas secas, menosprezado por sucessivas hordas de políticos de esquerda, de direita, de nenhuma ideologia senão aquela que lhes favoreça os bolsos. Lembrei Luiz Gonzaga, infundindo esperança ao povo com seu xote dos anos 50: “Mandacaru quando fulora lá na seca/ é um sinal que a chuva chega no sertão”. E aí resgatei o estranhamento que, ainda menina, sentia ao ouvi-lo no rádio. Não compreendia o que era fulora, só vindo a descobrir ser sinônimo de “floresce” muito depois.

Fiquei parada por instantes, divagando; mas percebendo que algumas daquelas flores juncavam o chão, fotografei as que permaneciam vívidas nos cactos, esperando sua hora final. De tão curta duração, poderia ser metáfora da existência humana. “Flor de beleza exótica/ Caprichosa e delicada/ Comunica o fim da espera/ Dura apenas a madrugada.” – declamei um dia na escola sem saber ao certo o que dizia.

Anúncio ao olhar humano de que vai acabar a espera pela vida possível na caatinga, ela leva otimismo ao sertanejo, entre os espinhos que são metamorfose de folhas- defesa contra predadores e também expressão de dor. A flor é um aceno esperançoso, esforço supremo para continuar vivendo através das sementes. E para quem quer viver e aguarda o sinal de que as águas estão chegando para fertilizar a terra.

Ao voltar ao carro, esbarrei em uma jovem com seu cãozinho. Cumprimentei-a, apontei as flores, disse-lhe arrebatada pelos sentimentos que me tomavam: -“ Não são lindas?!” Ela as olhou por uns segundos e me respondeu: -“O quê?”
 

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