Neblinas de queimadas...

Por: Maria Luiza Salomão

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Neblina dissolve a dureza/
Melhor a vera dúvida/Que a falsa certeza

 

Um dia queimaram os livros de Freud. Por ordem de... sabem quem. Judeu, considerado animal abaixo de qualquer animal, descaracterizado como humano, desqualificado, e, por consequência, como todo judeu, Freud foi despojado de qualquer dignidade – seu trabalho, sua casa, suas posses, sua família, sua vida.

Informado da queima de seus livros, praça pública de Berlim, Freud retrucou: “houve época que queimavam gentes”.

Este processo de desumanização – logo o bode expiatório eleito é taxado de rato, ou qualquer outro animal considerado ignóbil – é usado e abusado por ditadores, colonizadores, tiranos, genocidas de todos os tempos.

Negros, judeus, “bárbaros” da antiguidade (os gregos se consideravam a raça superior aos não-gregos), todos passíveis de serem escravizados e submetidos. Sub-homens.

Mulheres, impedidas de votar, de trabalhar fora, de vestir como queriam, de pensar (até hoje há culturas que assim se organizam). Mulheres, procriadoras e escravas, abaixo de escravos homens (até hoje, ganham menos que os homens, executando o mesmo trabalho). Crianças, seres invisíveis, até início do século XX, eram mini-adultos. Mulheres, crianças e índios, até recentemente, do ponto de vista jurídico eram seres sem qualquer autonomia – seres dependentes.

Hoje nem é preciso queimar livros, ou gentes. As pessoas são queimadas em Fake News. Esquecidas, com ideias e nomes torrados: cinzas acumuladas nos cérebros de gerações novas, que não conhecem a história e nem querem conhecer. Basta um zap e pronto! Uma palavra estigmatiza personalidades, contribuições elaboradas com esforço e resiliência, de gerações e mais gerações. Queimam-se arquivos vivos.

Freud não conheceu a era pós-guerras.

Queimavam-se gentes - nasciam heróis, nasciam perspectivas, caminhos bifurcados, trifurcados, polifurcados.

Queimavam-se livros - clandestinamente, muitos eram preservados por guardiães de humanidade: pontos de partida para evoluções e complexidades outras.

Hoje, o que se queima? A capacidade de pensar/imaginar/sentir. Resultado: não mais caminhos partidos, complexidades em teia.

- Cérebros e almas queimados um a um, uma a uma em linha reta direta. Clonados, toldados, soldados, formatadas gentes exatas. Em série.

Onde, e como, resistirão os sobreviventes – pensantes e sentintes – do novo holocausto?

Ah, Admirável mundo velho!

 

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