Congeia

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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A mãe chegou do Araxá com a mirradinha muda de trepadeira nas mãos para dar à filha, louca por plantas. Segundo ela, era das trepadeiras mais bonitas que já conhecera. E desfiava as qualidades, os ciclos do vegetal, segundo lhe contaram. Tinha a época do ano que ela parecia morta. Secava. Perdia as folhas. Apareciam galhos compridos e lisos, feito braços de púbere. De repente, brotavam folhinhas verdes, que nasciam sob os olhos do observador. Mais um tempo, vinham as florzinhas meio rosa, meio verdes, parte prata, que pareciam nascer das próprias folhas. Paciência: a mãe afirmou ser daquelas plantas exigem paciência e olhar de acompanhar transformações. Prometeu, numa manhã, sem que nada anunciasse, o muro explodiria em um festival tão lindo como o MardiGras de New Orleans: um pouco rosa, um pouco lilás, muito verde e muito prata. Era a planta premiando olhares e desvelo. A primeira vez que floriu, chamou atenção. As pessoas que passavam ou paravam queriam saber-lhe o nome, seria possível ganhar muda? De onde fora trazida?. Pacientemente a dona da casa explicava que não sabia o nome; que havia sido presente da mãe, mas que na entrada do Grande Hotel do Araxá, num terreno ao lado da estrada, tinha árvore semelhante. Na primeira poda, muitas mudas foram doadas. Nenhuma vingou: o processo era diferente do simples enfiar o galho na terra adubada. Certa tarde, madame da voz empostada e nariz em pé tocou a campainha. Chamou a dona da casa, que atendeu: ela também queria muda. Por esta ocasião, já se sabia o nome da planta: congeia. Foi-lhe explicado que o processo de reprodução era mistério, que muita gente levara galhos, que eles não vingaram. Madame deu-lhe olhada de bruxa, aquela de secar pimenta, e foi embora. No dia seguinte, a trepadeira amanheceu seca, como se tivesse sido queimada com gelo, como se forte geada tivesse cozido seus galhos. Depois do susto, a certeza: a madame era a responsável pelo crime ambiental. Passou o tempo. Certo dia chegou visita do bem, que já foi perguntando “Cadê aquela maravilha que caia do muro?”. Contaram-lhe o ocorrido. Seu olhar quase se fechou como a buscar na sua própria história algum fato semelhante. “Certa vez, disse ela, recebi visita de pessoa nossa conhecida que olhou com cobiça e inveja a exuberante tumbérgia que eu tinha na parede do fundo do meu escritório. No dia seguinte, estava esturricada. Deu-lhe um post-it e determinou: escreva aí o nome da bruxa que secou sua trepadeira, eu escreverei também, num outro papel. Aí a gente troca. Se for a mesma, vamos cortá-la das nossas relações e evitar prováveis encontros e confrontos com ela. Principalmente em jardins. Se não, a gente cala a boca e, igualmente, corta ambas dos nossos convívios.” Escreveram. Adivinha? Era a mesma. Não se sabe se ela tem congeia ou tumbérgia na casa dela. Mas quando a vêem, fogem feito o diabo da cruz e repetem baixinho o esconjuro que suas avós lhes ensinou.

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