Catástrofe

Por: Sônia Machiavelli

393796

Vi o moço magro e assustado contando na televisão o que sua posição no alto de um morro de Brumadinho lhe permitiu ver segundos depois do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão. Disse que escutou um barulho como se fosse chuva forte chegando, mas desconfiou porque o ruído lhe soava um pouco diferente. Mal se pôs a raciocinar sobre o que seria aquilo e viu a avalanche de lama lá embaixo. No seu impressionante relato detalhou que antes de fugir ainda enxergou “as mãos das pessoas abanando (antes das cabeças serem tragadas), gritos desesperados, choro de crianças vindos de longe”. E, o que descreveu de forma também perturbadora, as grandes árvores arrancadas com suas raízes “pareciam brinquedinhos que rolavam revirando em cambalhotas”. Essa última imagem revolveu em minha memória de aficionada por etimologia a origem grega da palavra catástrofe: “aquilo que vira para baixo”- literalmente. No nível das transposições de sentido, “o que sai da ordem natural, o que desestabiliza”.

Cisões e rachaduras precipitaram a avalanche de lama, sopa fria de um pantagruélico caldeirão do Inferno, sobre matas, rios, construções. A massa escura e disforme como monstro mitológico matou mais de duzentos humanos, um rio, incontáveis animais, espécies vegetais que nunca mais brotarão por ali. Parecia que uma das Fúrias havia se encarnado naquelas toneladas de barro que extinguiam com indiferença todo tipo de vida encontrado pela frente. E então veio o pânico, que imobiliza os gestos; seguido do desespero, que nubla a razão. Por grotesca, letal, pavorosa, irreversível, a cena surreal poderia fazer parte daquele livro bíblico chamado Apocalipse, onde os horrores irrompem ao som de trombetas. Só que em Brumadinho não houve aviso prévio. Tudo aconteceu no súbito, à hora tranquila em que, no Brasil, se almoça. Não teve sobremesa para a maioria dos brasileiros que ainda mantêm alguma sensibilidade neste nosso país de impunidade, descaso, indiferença ao destino do outro se este contraria o desejo de lucro. Tudo ficou indigesto.

E continua, pois decorridos dias ainda causa estupor ver as imagens no noticiário. O sentimento despertado é de agonia, de luta entre vida e morte, porque se já houve Samarco, com promessa de “Nunca Mais”, e agora há Feijão, descumprindo palavra, o que virá a seguir?

Retorno à palavra do título que transposta para a tragédia grega ganhou um sentido muito forte. No palco, o momento da catástrofe era aquele onde tudo se voltava contra o protagonista da trama. Para exemplificar isso de maneira bem clara, todos os personagens, num movimento brusco, se colocavam contra o ator que desempenhava o papel principal. Penso que todos nós brasileiros compassivos estamos agindo assim em relação àqueles que são responsáveis por essa tragédia humana e por esse desastre ambiental, do qual nos damos conta com tristeza e raiva. Estamos nos posicionando contra o estado de coisas que vigorou até aqui e mirando os responsáveis por essa aniquilação de gentes e fragmentação de coisas, dizemos em coro: “Não!” É assim que o luto pode virar luta.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras