Alemão

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Quase sempre, quando me proponho a contar uma história, acabo buscando bem lá no fundo das minhas lembranças, que já não estão funcionando muito bem, fatos ocorridos durante minha trajetória como bancário e a passagem para fase adulta, antes mesmo de constituir família e de saber que rumo tomar na vida. Assim, cavoucando bem lá no fundo do baú de minhas reminiscências, aflorou-me, como se fosse hoje, a chegada de um sujeito com cara, sotaque, cor e jeitão de alemão no balcão da carteira de financiamentos agropecuários, no banco onde eu iniciava minha carreira, ainda cru em experiência e conhecimento, e disse-me, sem cumprimentar e com cara de quem ia à cidade sem, pelo menos, tomar o café da manhã:

- Ich querrer saber quanto deverr aí de finanzierung.

Como era época de vencimento das operações, deduzi que ele queria saber quanto seria o saldo de seu empréstimo. Então perguntei o seu nome.

- Rainiche Craniche – soando uma voz cavernosa e gutural, que quase não entendi.

- Como é mesmo? – ousei perguntar.

- RRAINICHE CRRANICHE – agora um pouco mais forte. Ainda mais uma vez atrevi para repetir.

- RRRRAIINICCHE CRRRAANICHHE.

Aí percebi que, se insistisse mais uma vez, eu levaria um sopapo no pé da orelha. Então fui falar com o chefe, o Allan Kardec – não aquele codificador do espiritismo.

- Allan, aquele senhor que está lá na ponta do balcão quer ver o financiamento dele, mas não consegui entender o nome. Allan ajeitou os óculos, deu uma espiada por cima e disse: aquele é o Rainiche Craniche. Eu me contive de mandá-lo para aquele lugar, pois, afinal, era meu chefe e eu tinha educação de berço. Em seguida falou: vou pegar a ficha dele pra você. Foi até o carrinho, onde guardávamos as fichas amarelas, em ordem alfabética, onde se contabilizavam os empréstimos, mostrou-me a ficha e lá foi atender e conversar com o Sr. Heinrich Kranich. 

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